Crítica de música

Fiery Furnaces - Uma surpresa constante, inspiradora

27.02.2010 - 11:38 Por Mário Lopes

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Os Fiery Furnaces foram exactamente o que esperávamos - uma experiência que inebria Os Fiery Furnaces foram exactamente o que esperávamos - uma experiência que inebria (DR)
Fiery Furnaces
Lisboa, Santiago Alquimista
26 de Fevereiro, 22h15
Lotação esgotada
Quatro estrelas (em cinco)

A constante overdose de informação que vivemos actualmente deixa-nos demasiadas vezes a desagradável sensação que já vimos aquilo que vemos pela primeira vez. Já lemos tanto e já vimos tantos excertos no YouTube de concertos dos Fiery Furnaces que, inicialmente, julgamos ser previsível o imprevisível que temos perante nós. Portanto, a banda fundada pelos irmãos Matthew e Eleanor Friedberger em 2001 está no palco do Santiago Alquimista, na noite de 26 de Fevereiro, e o concerto a que assistimos é um óptimo concerto rock’n’roll.

Acompanhados por Robert d’Amico, baterista extraordinário, e Jason Loewenstein, baixista com história feita nos Sebadoh, ouvimo-los a transformar “Duplexes of the dead”, logo a início, em “melting pot” que deixaria orgulhosos os The Who do período clássico (acelerações inesperadas, “latinidades” fora de época), ouvimo-los seguir sem pausas para uma “Ex-guru” onde a melodia original, que é pop de artesão perfeccionista, se torna matéria convulsiva, pronta a ser recriada, reconstruída naquele preciso momento.

Ao início, não esquecemos que é precisamente isso que esperamos deste concerto. Sabemos que para os Fiery Furnaces o palco não serve simplesmente como amplificação do que lhes ouvimos nos discos. É uma outra coisa, uma outra dimensão: um espaço onde a cronologia de carreira se dilui e tudo aquilo que lhes conhecemos, a pop de traços vaudeville, o rock’n’roll como matéria por reinventar, a excentricidade como clássico moderno e o classicismo como nova vanguarda, se conjuga num corpo uno. E precisamente por isso, perante um Santiago Alquimista lotado, naquela que era a estreia portuguesa da banda americana, esquecemos que já conhecíamos o guião desta história.

Temos os pormenores pitorescos, como uma Eleanor adoentada (“perdi a voz em Valência”, conta), a pedir aos fumadores que não fumem (“bem sei que é noite sexta-feira…”, continua) e a convocar o irmão para a auxiliar quando a voz ameaça falhar. E temos o resto, perante o qual o pitoresco se transforma em coisa pouco relevante. Porque um concerto dos Fiery Furnaces é uma admirável subversão da obra da banda. Em palco, nada é sagrado.

A nostalgia de “The end is near” torna-se lamento “bluesy”, “Keep me in the dark” cruza negrume new wave e perfeição de standard dos anos 1950, e o amor angustiado de “Drive to Dallas” surge como melodia soluçante, perturbadora. As canções prolongam-se em novas formas e são sacudidas em “stomp” infernal, misto de free jazz do rock’n’roll e hardcore para quem gosta de dar movimento às ancas.

Durante todo o frenesim, nunca se perde a graciosidade e o mérito é todo deles. De Eleanor Friedberger, que sobrevoa o caos aparente com uma classe desarmante – o prazer da melodia sobre a vertigem da desconstrução. Da banda atrás dela, liderada pelo irmão Matthew, que transforma cada canção em palco experimental orquestrado com o fervor de músicos dotados dados ao improviso.

As canções sucedem-se sem pausas descartáveis e os encores (dois) chegam como epílogo lógico. “Tropical ice-land” abandona a alegria solar do original em favor de êxtase r&b. “Here comes the summer”, por sua vez, é new-wave como imaginada por Stephen Malkmus e “Single again” surge trespassada por uma ansiedade pós-punk que não lhe julgávamos possível. No final do segundo encore, Eleanor não pode cantar mais e Matthew diz que têm mesmo que acabar - ultrapassaram o horário permitido.

Os Fiery Furnaces foram exactamente o que esperávamos - uma experiência que inebria. Uma surpresa constante, inspiradora. Valeu a pena a espera.

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Antes tarde que nunca

é um facto Phill, a carneirada tuga sempre foi assim... e a critica musical lidera nesse ...

Poeta

01.03.2010 12:57

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