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Femi Kuti e Vieux Farka Touré

Festival Med: Loulé ocupada sem resistência

24.06.2010 - 16:44 Por Mário Lopes

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Femi Kuti, ontem à noite em Loulé Femi Kuti, ontem à noite em Loulé (Virgílio Rodrigues)
Vimos a descendência lendária do afrobeat em Femi Kuti e a descendência da realeza do Mali na guitarra de Vieux Farka Touré. Vimos mulheres à janela de casa, braços sobre panos no parapeito para não molestar as carnes, a observar com sorriso feliz a algazarra à sua frente. Entrámos por um mercado com topo decorado por crescente islâmico, descobrimos um pátio transformado por uns dias em restaurante marroquino, vimos tascas de petiscos e vendas de Medina em ruas com céu escondido pelos panos estendidos de telhado a telhado. Quarta-feira, 23 de Junho, o centro histórico de Loulé foi oficialmente invadido e a mulher à janela manteve o sorriso feliz.

Este labirinto de culturas, representado na própria organização do centro histórico de Loulé, com suas ruas estreitas e pequenos pátios recordando os séculos em que a cidade foi árabe, é aquilo que faz do Med um festival especial. No improvisado pátio marroquino, kebabs e durums são servidos a bom ritmo e, alguns metros depois, no histórico pátio do Instituto Superior D. Afonso VI, louros pouco mediterrânicos e mediterrânicos bem bronzeados beberricam umas cervejas, rodeados pelas fotos do quotidiano sírio em exposição nas paredes.

Nos jardins da alcaidaria que agora é museu, onde pernoitaram Dom Pedro I e Dom Sebastião, e onde D. Afonso V não chegou a tanto - limitou-se a repousar depois de uma batalha no Norte de África – o açoriano Zeca Medeiros, tesouro antigo e por descobrir da música portuguesa, ergueu a voz imensa, tão capaz de suavidade quanto de imponente gravidade, e fez-se estranheza Tom Waits, poética de canção francesa e surrealismo interventivo de José Afonso – um grande pequeno concerto, a aguçar o apetite para o “Fado, Fantasmas e Folias”, o CD-livro com edição marcada para Setembro. Pouco antes, descobríamos que Amparo Sanchéz trocou a euforia delirante dos Amparanóia pela dolência de baladas com sabor a México e suave balanço cubano, e, pouco depois, dois filhos de divindades trariam os melhores momentos do primeiro dia.

Femi Kuti, pacificado com a sombra tutelar do pai, foi magnífica correia de transmissão da estética e ética de Fela. África, a sua riqueza e a sua exploração, sempre presente no discurs e transposta para música que se afasta do afrobeat porque não estava Tony Allen na bateria, mas que é totalmente afrobeat quando os metais se erguem, estridência magnífica, para impulsionar a cadência hipnótica.

Dividido entre o sax, o trompete e o órgão Hammond, Femi Kuti liderou a banda com um fervor e uma intenção admiráveis. Na sua banda, secção rítmica e de metais, guitarrista e bailarinas funcionam como um corpo uno em movimentos circulares contínuos, tão festivos quanto hipnóticos. Nada se inventou é certo, mas nada há para inventar quando se tem em mãos esta riqueza nigeriana que transformou a tradição highlife, liberdade jazzística e a precisão funk de James Brown numa das mais magníficas invenções musicais do século XX. Na católica parede lateral da Igreja Matriz, transformada em ecrã, viam-se as bailarinas responder ao ritmo com movimentos lascivos. O público dançava e deus, se não o fazia, era certamente por se estar a guardar para o que seguiria.

Depois de Femi, filho de Fela, chegou Vieux, filho de Ali Farka Touré, e, no Palco Cerca, assistimos a uma revelação. Aos 29 anos, Vieux encontrou a sua linguagem. A banda formada por um guitarrista ritmo, baterista, baixista e percussionista, está lá para o servir, para responder aos seus impulsos. Todo o discurso musical, torrencial, transbordante de energia, é feito pela guitarra de Vieux. Esta, tal como tocada pelo pai, está presente nos fraseados serpenteantes e encantatórios, mas Vieux Farka Touré, vestido como bluesman antigo, transforma-a numa outra coisa. Um fluxo eléctrico incessante, quase demencial, como se Ali, seu pai, e Jimi Hendrix, seu herói, se reunissem num mesmo corpo. Eram canções solo aquilo que víamos, quer se aproximassem de ritmos senegaleses ou quenianos, quer passassem pelo blues ou sugerissem levemente o reggae. Mas não havia ali exibicionismo de guitar-hero. Antes uma torrente de electricidade ganhando constantemente novas formas e apontando novas direcções.

Vieux anunciou uma balada “para descansar” e caímos à primeira. À segunda, ainda demos o benefício da dúvida. À terceira, já sabíamos que não há espaço para baladas na sua música, que tudo nele é de uma intensidade avassaladora. Descobriu a sua forma de expressão: elevar a tradição dos griots à estratosfera.

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