17 de Julho de 1991. Numa quinta do Freixial, próxima de Bucelas, não há como fugir ao calor. É aí que o novo director da Cinemateca toma posse, antes de se lançar a primeira pedra do edifício que irá albergar o Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM). “Estava um calor horroroso, um daqueles dias para aí de 40 graus. Havia ali uma pequena recepção, tirámos os casacos porque ninguém aguentava mais, aquilo era um descampado. Lembro-me de olhar para a minha camisa: parecia que tinha acabado de sair da piscina, estava alagado.”
10 de Agosto de 2001. A porta abre-se para um gabinete que enfrenta o calor de portadas abertas, entre o rosto a sépia de Esther Williams e as orelhas de Dumbo. As instalações da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema (ele quer que se diga assim) na Rua Dª Estefânia, em Lisboa, são provisórias — as de direito, na Rua Barata Salgueiro, estão em obras —, mas João Bénard da Costa trouxe o necessário para se sentir em casa.
Esqueceu-se da data, mas completou recentemente uma década à frente da Cinemateca. “Foi quando me falaram da entrevista que pensei: ‘Ah, é verdade, faz dez anos’.” Há uma razão para isso: entrou nessa casa não há dez, mas há 21 anos, como subdirector e, “a partir desse momento, o entusiasmo e a dedicação foi total”. Como em tudo o que se envolveu, da revista “O Tempo e o Modo”, nos anos 60, à programação de ciclos na Gulbenkian, nos anos 70, dos filmes aos livros, quadros, música.
Parece muito (e é muito), mas João Bénard da Costa, 66 anos, quatro filhos, dez netos, gostaria de ter feito mais. Ficará para outras vidas, como diz.
A Cinemateca é a sua primeira casa?
É grande a tentação de fazer o bonito, dizer: “Sim, senhor, é a primeira casa.” Mas é evidente que não. Não morria se saísse da Cinemateca. E uma casa é a coisa mais importante da vida, talvez morresse se me tirassem a minha. Considero a Cinemateca uma casa mais de passagem. Sempre estive preparado para o dia em que sair. Não penso morrer em combate e espero ter uns tempos para mim depois.
Além de ver filmes, o que faz o presidente da Cinemateca?
Ver filmes é uma coisa que procuro fazer sempre, mas que não se conta entre as atribuições principais de um presidente, que é suposto ocupar-se de mil expedientes burocráticos. Há, como é evidente, muita coisa, informações para os ministros, relatórios... Ainda agora, estamos em plena obra na Barata Salgueiro, a discutir se o elevador vai ser assim ou assado, qual é que mais convém. Não é o mais apaixonante, como se calcula, mas são trabalhos sem os quais não se consegue nada. A minha maior paixão é a programação e talvez o responsável por esse serviço se possa queixar de que estou sempre a meter o bedelho. Nesse sentido, devo ser um presidente chato.
Já alguma vez recusou um ciclo proposto na Cinemateca?
Todos os anos temos umas reuniões grandes para ver ideias: há aquelas que me interessam e as que não me interessam muito. Uma cinemateca tem que fazer uma selecção grande do museu — como qualquer outro, não está tudo exposto. As reservas do Museu Nacional de Arte Antiga são imensas e você pode legitimamente chegar lá e dizer: “Mas este quadro fabuloso está nas reservas e está lá exposto um de que não gosto nada…” É o seu gosto contra o do director. Uma cinemateca tem obrigação de conservar tudo. Não posso fazer juízos, dizer: “Não gosto desse filme, não o quero para nada.” Mas não posso mostrar tudo, tenho que pensar exactamente o que estou a mostrar, fazer uma certa educação de gosto. Não me repugna nada esse dirigismo e aceito-o completamente.
Como ironiza numa das crónicas de “Os Filmes da Minha Vida”, só fala de filmes “do tempo da Maria Cachucha”. Por isso, houve quem se espantasse quando na Cinemateca se fez, este ano, o ciclo “Revelações dos Anos 90”.



