A construção do novo Museu dos Coches deveria arrancar este mês. Foi isso que foi avançado na apresentação, a 9 de Julho, do projecto que vai crescer nas antigas Oficinas Gerais de Material do Exército, em Belém, onde actualmente estão guardados os tesouros da arqueologia nacional, o espólio do ex- Instituto Português de Arqueologia. Mas o Ministério da Economia, responsável pela obra, não diz quando arrancarão os trabalhos. E o Ministério da Cultura ainda não sabe onde vai colocar a arqueologia. A hipótese da Cordoaria Nacional surge como provável.
A morada desta autêntica gruta de Ali Babá dos tesouros arqueológicos nacionais fica na Avenida da Índia, nº 136, em Lisboa. É para lá de um enorme portão verde, mesmo em frente à estação da CP de Belém que se concentram, por 12 mil metros quadrados de área, centenas de contentores com os mais importantes achados realizados em território nacional. Tudo começa ali e tudo acaba ali na arqueologia. Mas poucos sabem o que ali se guarda. À espera de ser despejado daquele local, onde vai crescer o futuro Museu dos Coches, este autêntico tesouro continuam à espera de ordem do ministro da Cultura para ser encaixotado rumo a uma nova casa.
Primeiro é preciso conquistar a simpatia do CIPA, o cão de guarda adoptado pelo pessoal do Centro de Investigação em Paleoecologia Humana, que lhe deu o nome. Passa-se então o portão das instalações do antigo Instituto Português. Mas não se imagina o que todo aquele espaço guarda.
Visitado quase em exclusivo por investigadores, os armazéns de depósitos arqueológicos, a biblioteca de arqueologia, a mais importante a nível nacional, e o espólio do Centro Nacional de Arqueologia Náutica (CNAS), estendem-se por vários edifícios dispersos por corredores de terra batida que parecem não terminar. Como se de uma pequena aldeia se tratasse.
Em pleno núcleo histórico de Belém, a escolha para a construção do novo Museu dos Coches, ali vizinho, acabou por recair nesta cobiçada fatia de terra, o que implica mudar de lugar centenas de contentores de material arqueológico, algum de muito delicada conservação, toda a base de dados da Arqueologia Nacional, com os dados sobre os 26 mil sítios arqueológicos registados em todo o território de Portugal continental.
Os terrenos por onde hoje se estende o espólio do extinto Instituto Português de Arqueologia (cuja fusão com o Instituto Português do Património Arquitectónico, IPPAR, deu lugar ao Igespar em 2002), foram comprados ao Exército no início da década de 1990, já a pensar numa nova casa para o muito concorrido Museu dos Coches. Mas, na indefinição sobre o arranque desse projecto, foi o IPA que acabou por descer, em 1998, do Palácio da Ajuda, onde estava instalado, para ocupar aquele lugar.
Arqueólogos preocupados
Jacinta Bugalhão, arqueóloga, esteve já a tratar de embalar algumas das peças do depósito onde se contam mais de 600 contentores de peças arqueológicas. “Ainda não temos ordem para empacotar mas já estou a empacotar porque me preocupa”.
Sacode o pó das mãos antes de explicar o que significa para a arqueologia desligar, por um dia que seja, toda a base de dados da investigação arqueológica nacional: “Todos os dias surgem sítios novos. Se isto pára, a arqueologia pára. Sem sabermos para onde vamos estou a ver isto muito mal parado”, afirma.
É pelos responsáveis da sala de inventário, onde se actualiza a mega base de dados da investigação arqueológica em Portugal, que são recebidos os estudos de impacto das grandes obras públicas, que também obrigam ao levantamento dos locais de interesse. Sofia Gomes, uma das responsáveis pela base de dados tem o dedo precisamente em cima do traçado do futuro comboio de alta velocidade, que aparece no ecrã do computador: “Há um sítio de interesse arqueológico a 32 metros do traçado, no Poceirão”. Desligar a base de dados implica atraso nas obras ou risco de perda de património arqueológico.
Mais extenso, em termos de informação, que esta base de dados, só o arquivo. No edifício do arquivo os corredores a perder de vista pintam-se de amarelo, a cor dos milhares de dossiers onde permanece arquivada toda a informação arqueológica. “Temos um quilómetro e meio de dossiers. O que está no sistema informático em síntese, aqui aparece com toda a informação, o mais completo possível, mapas incluídos”, explica Jacinta Bugalhão.


