Comentário do crítico de cinema do PÚBLICO

E "O Artista" calou a concorrência na noite dos Óscares

27.02.2012 - 08:12 Por Luís Miguel Oliveira

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Jean Dujardin Jean Dujardin (Foto: Allen J. Schaben/Los Angeles Times/MCT)
Com “O Artista” e “A Invenção de Hugo” entre os favoritos, a noite dos Óscares tinha caminho aberto para uma viagem ao passado. “O Artista”, travesti de filme mudo a homenagear a Hollywood dos anos 20 e a época do cinema propriamente mudo, e “A Invenção de Hugo”, evocação “high-tech”, CGI & 3D daquele, Georges Méliès de seu nome, que com os irmãos Lumière foi o mais importante pioneiro da história do cinema, davam de borla a palavra-passe: “nostalgia”.

Os argumentistas e demais pensadores da cerimónia de entrega dos Óscares não a desbarataram, e usaram-na até para os pormenores – por exemplo na maneira de anunciar os nomes e os títulos nomeados para cada prémio, em “lettering” ao estilo de um intertítulo de cinema mudo. Certo: a “nostalgia” marca presença em todas as cerimónias de Óscares, altura em que Hollywood se sente na obrigação de reconhecer a sua própria, e riquíssima, história. Desta vez, ainda mais do que noutros anos, contudo, ficou a sensação de que essa história é um fardo, de evocação até algo desadequada numa cerimónia que tem por objectivo a promoção de filmes novos de qualidade frequentemente duvidosa.

Os “clips” da praxe, e uns bailaricos vagamente alusivos a uns quantos filmes de outras eras – coisa que estava para esses mesmos filmes assim como, sei lá, os “naperons” com A Última Ceia bordada estão para o quadro de Leonardo da Vinci. É “kitsch”, é folclórico – mas Hollywood tem este drama de não encontrar outra maneira de olhar para o seu passado, a que de resto a aclamação de “O Artista” não é fenómeno totalmente alheio.

Também por isso, pareceu uma cerimónia longa e, no entanto, apressada, tendência que todos os anos se acentua e resulta de um esforço frenético para manter os espectadores agarrados ao canal emissor – mas se a cerimónia, como espectáculo televisivo que é, se transformou numa batalha audiométrica (Oprah Winfrey, que fez filmes mas é uma figura da televisão, teve porventura a mais sonora ovação da noite...), não estará aí uma boa razão para repensar aquilo tudo de alto a baixo? É que precisava, e já nem Billy Crystal, de regresso à condução da cerimónia após oito anos de ausência, safa aquilo sozinho. Passaram por ele, pelo seu texto e pelos seus ad-libs, no entanto, as mais curiosas alusões a uma série de contradições do momento presente, espelhadas também no registo evocativo dos filmes de Hazanavicius e Scorsese. Mormente a transformação tecnológica em curso (ou já praticamente terminada), a passagem da “idade da película”, que se manteve relativamente estável por mais de um século, à “idade do digital”, transformação que é por certo a mais significativa desde, justamente, a chegada do sonoro. Uma alusão à falência da Kodak (“o auditório ‘Chapter Eleven’), e mais tarde, depois de um clip de um dos filmes mais famosos de Crystal (o “When Harry Met Sally” de Rob Reiner), esta frase que soou mesmo como uma “bucha”: “you know, that movie was actually shot in film”. A sala não tugiu nem mugiu, e o pobre Billy, por segundos, pareceu um homem completamente sozinho.

E os prémios? Bom, os prémios foram, de um modo geral, repartidos entre “O Artista” e “A Invenção de Hugo”, que levaram cinco estatuetas cada um. O filme de Scorsese arrancou melhor, porque ganhou sobretudo nas discutivelmente chamadas “categorias técnicas” – mistura de som, efeitos visuais, montagem, direcção artística e fotografia (ou “cinematografia”, na expressão inglesa, em qualquer caso designação que devia ser revista, chamar-lhe “imagem” por exemplo, porque o cinema resulta cada vez menos de um processo fotográfico).

“O Artista” não perdeu com a espera: estavam-lhe reservados três dos mais nobres óscares, melhor filme, melhor realizador, melhor actor (Jean Dujardin), a que se juntaram os prémios para guarda-roupa e partitura original. Foi, portanto, o “triunfador” da noite. A estatística diz que foi o segundo filme mudo a ganhar um óscar de melhor filme, depois do “Wings” de William Wellman na inaugural cerimónia de 1927. Mas a estatística é incapaz de perceber a diferença entre um filme mudo e um filme que finge que é mudo (e nem finge até ao fim).

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Óscares 2012: O triunfo da nostalgia francesa

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É um artigo de opinião, qual é o drama?

Vocês querem apenas criticar por criticar, é isso?! Não há lugar, abertura para opiniões de ...

Octávio Ferreira

27.02.2012 11:36

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