Mal entrou no palco, ainda elegante e gracioso, Merce Cunningham recebeu uma ovação. Nova Iorque conhece bem o seu mestre da dança contemporânea, mas já não esperava vê-lo dançar e era isso que, aos 80 anos e durante os sete minutos seguintes, ele ia fazer.
A coreografia, “Peça de Ocasião”, deste ano e que estreou na semana passada no Lincoln Center, em Manhattan, é um Cunningham clássico: dois solos simultâneos mas independentes, como se os dois bailarinos estivessem sozinhos no palco.
Mas quando os bailarinos são o próprio Cunningham e Mikhail Baryshnikov; quando o cenário são as caixas transparentes que Jasper Johns fez em 1968 a partir de “Large Glass”, de Marcel Duchamp; e quando a música, de 1947, se chama “Música para Marcel Duchamp” e é de John Cage, director musical fundador da companhia, a coreografia não é apenas um Cunningham clássico.
Passa a ser, intencionalmente ou não, uma homenagem múltipla e justaposta – como a sua dança – aos últimos 50 anos da arte de vanguarda.
Estes foram os colaboradores de sempre do coreógrafo, mas os sete minutos da peça sintetizam parte da história do século XX.
O espectáculo, “A Lifetime of Dance — Merce Cunningham Dance Company”, fez parte de um tributo do Lincoln Center ao coreógrafo, que fez 80 anos em Abril, e incluiu dez coreografias em dias diferentes, dos anos 50 até hoje.
“Este é o 60º ano em que danço”, disse Cunningham na noite da estreia, depois de receber a Medalha de Handel, o mais prestigiado prémio de arte de Nova Iorque. “Sinto-me tão acarinhado pelo vosso interesse por mim e pelo nosso trabalho.”
Hoje, Cunningham fala como dança. Depois de uma entrevista ao “New York Times”, há uma semana, o jornalista lamentou com algum encanto que o coreógrafo quis sobretudo falar sobre cozinha e a dieta macrobiótica que ele e John Cage adoptaram por conselho de Yoko Ono, que um dia viu o compositor a caminhar na rua 14 com um aspecto muito frágil, parou a limusine e disse: “Tens que fazer uma dieta macrobiótica!”
Do mesmo modo, na “Peça de Ocasião”, é Baryshnikov, 51 anos, que vive em Nova Iorque desde que fugiu da URSS em 1974 e que em 1990 fundou a sua companhia, a White Oak Dance Project, quem dançou à frente do palco e das caixas.
Cunningham manteve-se quase sempre atrás dos objectos do cenário que, por serem semi-transparentes, deixavam ver apenas uma parte dos movimentos.
O contraste entre a vitalidade e rigidez de Baryshnikov e a fragilidade e subtileza de Cunningham provocou uma emoção na sala como nenhuma outra coreografia do programa.
À frente das caixas, Cunningham fez apenas gestos delicados com os braços, ao mesmo tempo que olhava directamente para os espectadores. Foi atrás das caixas – e por ter a ajuda de uma barra – que Cunningham dançou “mais”, como se estivesse a dizer que já não vale a pena ser visto.
“Vim para Nova Iorque em Setembro de 1939 e em Dezembro estava a dançar na Broadway com a Martha Graham”, disse Cunningham no fim do espectáculo. “Desde o primeiro dia que considero Nova Iorque a minha casa.”
Cunningham nasceu em Centralia, no estado de Washington, na costa oeste, e estudou em Seatle e a seguir na Califórnia, no Mills College, onde Graham o descobriu.
Entre 1939 e 1945 foi solista da companhia de Martha Graham, fez o primeiro concerto a solo com John Cage em 1944 e em 1953 criou a sua companhia com um grupo de bailarinos com quem trabalhara no Black Mountain College, a célebre escola de artes da Carolina do Norte.
Desde então fez mais de 200 coreografias, quebrou regras e barreiras, e, com Cage, explorou o caminho da dança no qual a música não é um suporte mas coexiste com a coreografia.
Seguindo a teoria de Ananda Coomeraswamy, uma académica associada ao Fogg Art Museum de Harvard nos anos 30 e 40, Cunningham e Cage aplicaram a ideia de que a multiplicidade da vida representa uma multiplicidade de possibilidades no palco.


