Dez anos de Monstra com cem anos de República e cheiro a Óscares

11.02.2010 - 14:22 Por Joana Amaral Cardoso
Dez anos de Monstra - Festival de Animação de Lisboa dão nisto: uma edição alargada de dez dias, com uma secção especial de tributo ao centenário da República feita por cem artistas portugueses e o regresso da dança à Fundação Gulbenkian, através de uma parceria que ganhará forma em duas sessões especiais. O festival tem este ano como convidados os nomeados ou premiados pelos Óscares da Academia Normand Roger, compositor canadiano, e o animador norte-americano Bill Plympton, que será homenageado com uma retrospectiva do seu trabalho e dará uma "master-class" dedicada à arte de fazer um filme de animação com pouco dinheiro.
O festival, que nesta edição se foca nas curtas-metragens (as longas e curtas alternam anualmente), conta com 56 curtas de 30 países, mais 64 curtas de estudantes de 29 escolas de todo o mundo. Mas há também longas-metragens e projectos em estreia nacional, como o filme "Mary and Max", escrito e realizado por Adam Elliot e com as vozes de Toni Collette, Philip Seymour Hoffman e Eric Bana. O filme de Adam Elliot integrou a selecção oficial do Festival de Sundance de 2009 e passou na sua noite de abertura, tendo também passado pelo Festival de Berlim do ano passado (onde recebeu uma menção honrosa).
A nona edição da Monstra - o festival falhou uma edição, cumprindo 10 anos mas apenas nove edições -, que se realiza entre 11 e 21 de Março, terá como país homenageado Portugal. Em 2000, foi o Brasil o homenageado e agora regressa-se ao português "porque este ano se comemoram os cem anos da República portuguesa", explica o director da Monstra, Fernando Galrito.
Por isso mesmo, o festival associou-se à Comissão Nacional para as Comemorações dos Cem Anos da República e dessa colaboração sairão três projectos, um dos quais é o filme "Dez por Cem" - um filme de animação que juntará cem criadores portugueses (músicos, animadores, argumentistas, caricaturistas, fotógrafos) em torno de um conceito e de uma cultura artística portuguesa da era do nascimento da República. De Almada Negreiros a Amadeo de Souza Cardoso, os cem artistas vão "criar uma obra que permita, através da arte e da animação, evocar a República portuguesa", explica Galrito, com os convidados a "reinterpretar" e a trabalhar sobre peças icónicas de um "período muito rico da nossa arte". O filme, no entanto, não vai passar nesta edição da Monstra por não estar pronto a tempo, estando prevista uma sessão especial em Junho para o estrear. Ao longo do ano, a organização associa-se a uma exposição itinerante sobre a República em 50 locais de todo o país, com a realização de workshops para crianças.
Ainda sobre o cinema português de animação, a Monstra vai dedicar-se às técnicas que o caracterizam: o preto e branco, os volumes e as profissões que, para além dos realizadores, estão por trás da feitura da animação portuguesa em movimento. E, nota o seu director artístico, haverá também tributos ao Cinanima e a Vasco Granja como divulgadores da animação em Portugal, bem como um enfoque sobre o papel das mulheres no sector.
Mas como a Monstra tem, ao longo desta década, homenageado a cada ano vários países, eles regressam com um dia para cada na programação, da "Rê Bordosa" de Angeli (Brasil) aos mais recentes "Les Ventres" (Suíça, 2009) de Philippe Grammaticopoulos.
Outro eixo da programação da 9ª Monstra é a Animação e a Dança, numa nova parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian onde se realizarão duas sessões que aliam as duas expressões, com destaque para o filme pioneiro de 1905, descoberto há cerca de dois anos, feito pelo antigo coreógrafo do Ballet Bolshoi Alexander Shiryaev que misturou desenho animado e marionetas. Embora se centre no cinema São Jorge, este ano a Monstra regressa ao Museu Nacional de Etnologia, Teatro Meridional, estreia-se no Cinema City Alvalade e revisita o Museu da Marioneta, onde hoje inaugura a exposição "Desassossego", de Lorenzo Degl'Innocenti.
Nesta edição continua a Monstrinha, a secção dedicada aos jovens públicos que integra visionamentos em escolas, "workshops" e outros projectos. As crianças são "um dos nossos grandes públicos", comentou Fernando Galrito na apresentação do programa. Dos cerca de 15 mil espectadores da Monstra, "há quase tantos miúdos quanto adultos", frisa.
Na Monstra estreiam-se mundialmente dois projectos: "Aedificandi", que abre o festival, um projecto que une arquitectura, animação e arte, e "Aerosom", que juntará música, desenho com luz e movimento.


