Eduardo Lourenço, ensaísta
"Em todos os sentidos, como destino e como autor, é um caso paradoxal. Aparece tarde no horizonte da ficção portuguesa, quando já ninguém o esperava, provavelmente nem ele. E isso é já em si um paradoxo e sobretudo um milagre cultural. À sua maneira, era uma versão nossa da Gata Borralheira.
Para imitar Saramago, também ele se levantou do chão, de um sítio sem memórias eruditas canónicas, apoiado na sua extraordinária experiência dos homens, sonhando e ressonhando o texto que foi para ele matricial. Refiro-me à Bíblia.
Quase todos os seus livros célebres são um diálogo com a mitologia bíblica, que ele vai submeter a uma estranha desmitologização, fazendo com ela um mundo às avessas ou antes um mundo onde as mais famosas histórias bíblicas se tornam a história mesma da humanidade unicamente humana.
Provavelmente com a queda da utopia que foi assumidamente a dele, essa espécie de diálogo dramático com a mundovisão religiosa de raiz bíblica foi o que o salvou, não só literariamente, do traumatismo ideológico e ético.
Deportou o essencial da sua utopia para paragens onde esse autêntico apocalipse político fosse substituído pelos sonhos de uma humanidade que pudesse ter perdido uma guerra mas nunca a ilusão que a faz viver."
Pedro Mexia, subdirector da Cinemateca e crítico literário
"Já há algum tempo que se esperava a notícia, embora José Saramago tenha recuperado até muito bem nos últimos tempos, numa espécie de nova vitalidade. Mas tinha 87 anos e já tinha estado quase do outro lado. Ele teve uma espécie de segunda vida, depois daquela quase morte de há três anos em que passou a ter um renovado sentido de humor, uma coisa que não era muito óbvia nele. E escreveu A Viagem do Elefante, um livro também invulgar na obra dele. Foram os últimos anos de vida um bocadinho diferentes, e para mim foi uma surpresa agradável.
O gosto de viver acentuou-se no confronto com a morte, como, aliás, penso que é relativamente natural que aconteça. A Viagem do Elefante, que só terminou depois de ser hospitalizado, é um livro que não tem uma amargura muito comum noutros livros dele. Isso foi uma novidade de fim de vida que apreciei bastante.
Duas características marcam o lugar dele na literatura portuguesa. É um escritor de ideias, o que não é o mais comum no âmbito da ficção portuguesa. Os romances dele partiam sempre de uma ideia forte, alegorias sobretudo políticas e civilizacionais. É um autor que constrói os seus romances à volta de ideias e não necessariamente de personagens ou de enredos. Há uma visão do mundo que é muito forte.
E, por outro lado, a sua escrita era uma espécie de actualização do barroco do padre António Vieira, um autor de que ele gostava e que tinha lido. Os famosos parágrafos corridos tinham também muito a ver com o incorporar dos diálogos e portanto com uma mistura de uma linguagem muito literária com uma abertura à oralidade que era a abertura às personagens e às classes que não têm acesso a outro tipo de linguagem - que falam e não escrevem.
Isso também tinha uma intenção política. Acho que ele também ficará como um autor político, o que naturalmente também tem os seus perigos, porque os autores que ficaram ligados à política nem sempre as suas obras envelhecem bem. Não sei se será o caso de Saramago. É um autor de que gosto muito de alguns livros e nada de outros.
Foi o primeiro português que ganhou o Nobel e provavelmente o último e desse ponto de vista esse lugar está assegurado na literatura portuguesa."
Urbano Tavares Rodrigues, escritor
"Toda a obra literária de José Saramago é tocada pela centelha do génio, particularmente livros como Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo e Ensaio sobre a Cegueira. A força das ideias mestras, a lucidez e o humor, a originalidade de um discurso oral que interpela o leitor e mescla dialecticamente acção, diálogo e comentário combinam-se em todos os seus livros com elementos mágicos de variada extracção, que ele muito justamente faz seus.


