Exposição na Gulbenkian

Deixar-se indisciplinar por Fernando Pessoa

10.02.2012 - 12:44 Por Isabel Coutinho

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Fernando Pessoa lendo Orpheu, quadro de Almada Negreiros na exposição Fernando Pessoa lendo Orpheu, quadro de Almada Negreiros na exposição (Enric Vives-Rubio)
Fernando Pessoa é "um poeta português sem sotaque". Esta frase é dita a brincar por Carlos Felipe Moisés, o curador brasileiro da exposição Fernando Pessoa - Plural como o universo, que já pode ser visitada na Fundação Gulbenkian e assinala o Ano do Brasil em Portugal.

A exposição foi criada originalmente para o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, onde esteve no ano passado, numa colaboração com a Fundação Roberto Marinho. Passou depois pelo Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, atingindo os 400 mil visitantes no Brasil, e chega a Lisboa numa versão aumentada e com mais espaço expositivo.

"Esta é a melhor das três [versões da exposição]", afirma ao P2 Carlos Felipe Moisés durante uma visita guiada para jornalistas. "O espaço na Gulbenkian é mais generoso, o que permitiu que a concepção cenográfica fosse realizada na íntegra. Tanto em São Paulo como no Rio havia limitações de espaço físico. Em Lisboa podem ser vistos manuscritos e originais a que no Brasil não tínhamos acesso. O famoso quadro de Almada Negreiros está aqui, em São Paulo só tínhamos uma reprodução." Na Gulbenkian está também a famosa arca de madeira do poeta, que foi cedida para a exposição pelo anónimo que a arrecadou, em leilão, em 2008. "O visitante dessa terceira versão da exposição é privilegiado, tem essa exposição na melhor forma possível", acrescenta o curador brasileiro.

Numa das vitrinas, de uma das várias salas ocupadas pela exposição até ao dia 30 de Abril, vê-se uma folha de papel branco, que pertence ao espólio do poeta na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), onde Fernando Pessoa (1888-1935) escreveu a frase: "Sê plural como o universo!" Foi a partir desse manuscrito que nasceu o título "Plural como o universo", que, como explica o outro curador da exposição, Richard Zenith, tradutor especialista em Pessoa que vive em Lisboa, remete para a multiplicidade que conhecemos em Pessoa. "Era um escritor que estava sempre em movimento e defendia que uma pessoa com uma mente activa não se podia fixar numa só opinião. Por isso, Pessoa se contradiz. Não acreditava na Verdade, para ele havia muitas verdades, com pontos de vista diferentes talvez se pudesse chegar a algum lado."

Os curadores quiseram mostrar que "Pessoa é um poeta para todos" e fazer uma exposição para todas as idades. A exposição é lúdica, interactiva e labiríntica: não tem um percurso marcado para que os visitantes se aventurem no seu espaço. "Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o que aconteceu [nas visitas à exposição] é que as pessoas davam conta de que são tão plurais, em potência, como Fernando Pessoa", diz Carlos Felipe Moisés.

Basta olhar em volta para nos virem à memória pedaços de poemas esquecidos. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo", do Poema em linha reta de Álvaro de Campos. Ou ainda, "Pertenço a um género de portugueses/Que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem trabalho", de Opiário também de Álvaro de Campos.

Logo na primeira sala entramos no jogo do autor de Mensagem e somos apresentados ao ortónimo (Fernando Pessoa) e aos heterónimos principais (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares) através de cinco cabines, dedicadas a cada um deles. Uma sexta cabine, intitulada Eu sou muitos, representa as outras dezenas de personalidades literárias que Pessoa criou. Em cada cabine há ambiente sonoro e são projectados textos (versos e excertos). Quando se esbraceja ou se mexem as mãos para o alto, as letras na parede decompõem-se e aparece um novo texto. Fernando Pessoa - Plural como o universo tem uma grande componente multimédia: filmes (Limite, de Mário Peixoto, e Pessoas, de Carlos Nader), vozes e sons e poemas ditos e ainda páginas de livros que com um só toque do visitante se desfolham.

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Sou plural e a mudança que quero ver no mundo!

Assumo na prática, em Portugal, “Se plural, como o universo” e “Seja a mudança que quer ver no ...

Roberto Moreno

11.02.2012 16:11

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