Para o presidente da Câmara de Florença, Matteo Renzi, o que a mais recente polémica nos meios culturais italianos prova é que os advogados em Roma “não tinham nada melhor para fazer em Agosto”. E aquilo a que se dedicaram foi a desenterrar documentos históricos para tentar provar que a célebre estátua de David, de Miguel Ângelo, pertence ao Estado italiano e não à cidade de Florença.
A argumentação, conta o "Guardian", surgiu sob a forma de nove páginas nas quais a equipa de advogados do Governo de Sílvio Berlusconi diz que o sucessor legal da República Florentina é o Estado. “Com todo o respeito pelos advogados romanos”, respondeu Renzi, “os documentos na posse do Estado e da cidade são claríssimos: David pertence a Florença”.
Renzi é, refere o jornal britânico, “uma estrela em ascensão no centro-esquerda italiano”, o que faz obviamente desta polémica uma luta política, em que o presidente da Câmara de Florença aparece como um adversário de Berlusconi e dos seus ministros – neste caso em particular do ministro da Cultura, Sandro Bondi, figura detestada pelos meios culturais da esquerda.
“Quando Roma se tornou a capital, um decreto de 1870-71 atribuiu o Palazzo Vecchio e todo o seu conteúdo a Florença, incluindo o David”, explicou Renzi, dando a sua versão dos documentos históricos. “O David é nosso, é isso que dizem os documentos”.
Os advogados do Estado contra-argumentam dizendo que o decreto relativo ao Palazzo Vecchio não faz qualquer referência à estátua esculpida por Miguel Ângelo a partir de um bloco de mármore de Carrara e que se tornou o maior símbolo de Florença. E mais: em 1873, quando David foi colocado em exposição a cidade não reivindicou quaisquer direitos sobre a estátua, e um ano depois o então presidente da Câmara terá mesmo dito que aquela pertencia a Roma.
A questão é que David vale hoje milhões – em concreto oito milhões de euros anuais em vendas de bilhetes. Mas, segundo o "La Repubblica", quem recebe esse dinheiro é o Estado italiano (assim como as receitas de todos os museus de Florença) que, acusa Renzi, não cumpre as promessas de investir na preservação do património da cidade.



