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Texto publicado a 7 de Maio de 2010

Da África do Sul à contracosta, com Ruy Duarte de Carvalho

12.08.2010 - 16:17 Por Marta Lança

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Ruy Duarte de Carvalho em 2007 Ruy Duarte de Carvalho em 2007 (Nuno Ferreira Santos)
Ninguém, à excepção do Ruy Duarte de Carvalho, sabia grande coisa sobre a África do Sul para além das suas tensões recentes. É ele que vai à frente nesta viagem de 13 dias e seis mil quilómetros, portanto, e logo a seguir os seus jovens amigos: o Luhuna, que ia recolhendo numa câmara materiais de observação directa; Miguel Carmo, certeiro nas impressões e navegações espaciais; e as Martas -a Mestre que ia avivando a conversa, e a outra Marta, esta que vos escreve, gerindo a logística de uma viagem redonda, de Joanesburgo a Joanesburgo, do interior à costa pela outra costa, deixando de fora a província do Cabo Oriental, berço de lutadores anti-apartheid, ainda assim presente nas histórias de bordo.

Desde cedo até ao fim da tarde: mãos rotativas ao volante, pneus a rasgar as boas estradas sul-africanas, olhos maravilhados e exaustos de reter as paisagens a cada solidão um monte ou deserto preferido -e dentro do carro uma voz que se ouve mais do que as outras.

Antes da África do Sul, tinha havido um cozido à portuguesa na Baixa de Maputo, em Setembro. Decorria, no Dockanema, "E agora... vamos fazer mais como?", ciclo dedicado ao escritor e cineasta angolano Ruy Duarte de Carvalho, que acumula admiradores no mundo lusófono, e a viagem, patrocinada pelo Instituto Camões, começava a ganhar forma. Uma viagem espraiando-se por mudanças de relevo, animais, campos de pastagem, cores e brilhos que vão ocorrendo na paisagem: a sua adaptação morfológica ao clima e a metafísica que nos faz empatizar com ela. Uma viagem atenta à história das várias expansões e colonizações do país. Que fosse a origem, com base nos materiais recolhidos e nas conversas semeadas, do livro "As Paisagens Efémeras, Atas de Santa Helena", de Ruy Duarte de Carvalho, e também de um possível filme.

Ou não estivesse a viagem sempre inscrita em tudo o que faz.

Mas há outras ambições nesta viagem: problematizar o processo de ocidentalização do mundo e os seus efeitos, focalizados no espaço atlântico.

Que relações existiram entre europeus e populações locais? Que fenómenos desencadearam? Isto tudo pelo gosto de entrelaçar tempos. De ver naquilo que é já passado, vestígio só, matéria de conjectura histórica.

De encontrar os traços do antecedente na imagem presente e nas projecções do futuro.

Então lá estamos nós dentro de um carro dias a fio. E acabamos por aprender qualquer coisa da complexidade deste país africano que está nas bocas do mundo por causa do futebol e da persistente violência. Conclusão: a África do Sul é um país bizarro.

O Ruy está contente e só se cala esporadicamente para fixar um pormenor da paisagem e depois dizer coisas como "na vida ou se escreve ou se vive", citando Pirandello, ele que faz tão bem as duas coisas. Traz leituras e considerações, enche o espaço de referências e pensamento, de paisagens efémeras e propícias, de figuras da História. Conta episódios da vida e anedotas também. Fala no feminino quando conversa com as raparigas.

"É uma narrativa sólida e quente que transforma a paisagem da África do Sul em nostalgia", há-de escrever um de nós.

Angola, aonde regressa sempre apesar de agora viver em Swakopmund, na Namíbia, é tema recorrente e que nos liga naquela cumplicidade dos territórios do coração.

A comer uma pizza na barragem Gariepdan, abro o seu último livro, "A Terceira Metade", e tropeço nisto: "enrolados para quem não pára porque não pode, não quer ou não sabe, tal como nós estamos todos desde há muito ao corrente são os caminhos das voltas que a vida dá, como são os que no sono levam sempre aos mesmos sonhos recorrentes."

Brancos contra brancos, e contra negros

Pernoitamos em Vinburg. Uma cidadezinha de atmosfera "Twin Peaks" no interior do Free State onde os bóeres, brancos camponeses normalmente enormes, vivem e são senhores. O bóer é uma produção da África Austral, havemos de saber no curso da viagem. Na "guesthouse", um bancário bêbado pergunta-nos, meio em inglês, meio em afrikaans, crioulização da sua língua materna holandesa, se estamos a falar russo. Ao pequenoalmoço, a serviçal roliça diz que vai casar em Março e está muito feliz. "A minha mãe diz: 'Vai sempre atrás do teu marido'". E ela foi, e agora serve salsichas com ovos e carne agridoce a endinheirados rurais.

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saudade

Deixas muitas saudades Tio.A tua voz calma mas firme, deu-me muita força ultima vez que ...

Sara Pestana

12.08.2010 21:20

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