PJ Harvey
Aula Magna, Lisboa
25 de Maio
Lotação esgotada
Três estrelas e meia (em cinco)
PJ Harvey foi em tempos idos rock’n’roller de saltos altos, mulher de vísceras expostas sobre gravilha sonora arrancada ao blues. PJ Harvey não é há muito essa mulher. Sabíamo-lo pelos menos desde “White Chalk”, álbum de 2007 feito de fragilidades ao piano e voz subindo a escala até uns agudos que não lhe conhecíamos. “Let England Shake” surgiu este ano para o confirmar definitivamente. É um álbum de sangue e vísceras, mas não é catarse ou provocação. É sangue de corpos tombados na eterna carnificina da guerra e foi a PJ Harvey que os canta que vimos ontem na Aula Magna, no primeiro dos dois concertos esgotados na sala lisboeta.
Com toda uma outra elegância no vestido negro e penacho na cabeça, ocupou o palco com uma discrição sempre presente – impossível desviar o olhar daquela figura esfíngica que caminhava vagarosamente, séria e impenetrável, sem trocar qualquer palavra com o público para além do rápido agradecimento pré encore e da apresentação de banda que se seguiu ao regresso a palco. Não podia ser de outra maneira.
Como montar o habitual circo rock de palmas a compasso e manifestações de apreço quando se cantavam canções de morte e desespero, quando ouvíamos “death was everywhere”, o primeiro verso de “All and everyone”, quando chegava essa tremenda “The colour of the earth” que tem a solenidade de folk perdida nos tempos e a violência da pior das dores, a impotência e a culpa que se funda para não desaparecer jamais – um homem e um campo de batalha: “Louis was my best friend [...] and I never saw him again”.
Estranho contraste aquele na Aula Magna. A sala invadida por um calor quase tropical, leques abanando e público suando em bica, enquanto no palco, PJ Harvey, acompanhada pelos inevitáveis John Parish (companheiro de longuíssima data, na guitarra e teclas) e pelo Bad Seeds Mick Harvey (guitarras, teclas, baixo) e pelo baterista Jean Marc-Butty, surgia como feiticeira de mitologia inventada, como anjo vingador em queda vinda de terras gélidas a norte – imagem acentuada pela auto-harpa encostada ao peito com que iniciou o concerto, interpretando o tema título do último álbum.
“Let England Shake” é uma obra maior no percurso da cantora de Dorset. É música densa habitada por alma folk assombrada, atravessada por fantasmas que se materializam, “samplados”, ao longo das canções. Ao vivo, porém, tudo se torna mais simples e transparente, sem a névoa de mistério conseguida em estúdio – o que acaba por criar um certo distanciamento, o que desvanece mais do que desejaríamos o peso das imagens que as canções evocam (essa foi, de resto, a grande mácula no concerto).
O público manteve-se reverencialmente silencioso enquanto se ouviam as canções, reservando aplausos emocionados para o final de cada uma delas. Aqui e ali, quais fogachos de descontracção num concerto envolto em aura de solenidade e totalmente centrado em “Let England Shake”, ouviram-se grasnares de corvo (dedicado ao vestido negro de Harvey?), ouviu-se um “you are beautiful” que não deixou dúvidas quanto ao destinatário.
Pelo concerto passaram “Written in the forehead”, PJ Harvey à guitarra eléctrica pela primeira vez, e aquele curioso contraste entre o rock minimalista e as vozes jamaicanas sampladas (“Let it burn”, ouve-se), ou “The glorious land” e as suas trombetas militares que colidem com as guitarras afogadas em reverberação, num turbilhão que avança, conturbado, amaldiçoado: “What is the glorious fruit of our land? / Its fruit is deformed children”.



