11.ª edição terminou sábado e fomos saber o que afinal lá se passa

Correntes d"Escritas: Todos ficaram acorrentados

01.03.2010 - 12:30 Por Isabel Coutinho

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Desde a primeira edição, dezenas de escritores de expressão ibérica juntam-se para conversar sobre literatura Desde a primeira edição, dezenas de escritores de expressão ibérica juntam-se para conversar sobre literatura (Paulo Pimenta)
Alto e pára o baile. "Mas isto aqui é os académicos a falar para os analfabetos, é?" quase grita agarrado ao microfone o senhor que se levantou da plateia. É uma das presenças constantes nas Correntes d"Escritas, cuja 11.ª edição decorreu durante quatro dias no auditório da Póvoa de Varzim. Aparece em todas as sessões e em todas pede para falar. O moderador da conferência, que já sabe o que a casa gasta, tentava pedir-lhe que fizesse uma pergunta concreta. Não conseguiu.

Acorrentado: é assim que fica quem alguma vez coloca os pés nas Correntes d"Escritas. Quem diria que um encontro literário, o único que existe há 11 anos em Portugal, que nasceu de uma ideia simples de Francisco Guedes (que agora também organiza o LEV - Encontro de Literatura em Viagem, em Matosinhos) concretizada depois de uma conversa com o vereador da Cultura da Póvoa de Varzim, Luís Diamantino, iria deixar acorrentados (para toda a vida) aqueles que por aqui passam. Um festival literário onde nos podemos cruzar e até meter conversa com gigantes e anões (e acreditem, não se trata aqui só de uma metáfora literária).

Ano após ano, desde a primeira edição em 2000, dezenas de escritores de expressão ibérica juntam-se para conversar sobre literatura. Descobrem leitores que não sabiam ter e cativam novos: pessoas que, depois de os ouvirem falar ou apresentar as obras, se precipitam para a livraria improvisada no local onde se realizam as conferências. E aturam o tal senhor que se levantou da plateia que a todos alerta no espaço aberto às perguntas do público dizendo coisas mais ao menos assim: "Que isso da literatura está bem, mas os chineses estão a comprar os títulos do tesouro americano e eu quero saber o que vamos fazer para controlar a revolução amarela. E depois há os africanos que estão a vir para a Europa e daqui a 200 anos vamos ser todos mulatos e quem é que quer isso?! Was ist das? Sim, porque desconstruir o absurdo é muito bonito, mas..." E é melhor ficarmos por aqui.

Boquiabertos

Todos os escritores, sem excepção, venham de que local do mundo vierem, ficam perplexos quando começam a trocar e-mails com Francisco Guedes e Manuela Ribeiro, os co-organizadores do encontro. Muitos não querem aceitar o convite antes de saberem qual é o tema da mesa onde se espera que participem. Manuela Ribeiro vai consecutivamente adiando o momento da revelação. E eles, entretanto, aceitam o convite. Depois chegam por e-mail os temas, muitas vezes citações de poemas ou de textos de escritores. São quebra-cabeças e deixam os participantes boquiabertos: Escrevo para desiludir com mérito, ou Passo e fico, como o universo, ou O poeta é um predador... Esta última frase é de Agustina Bessa-Luís, a homenageada desta edição a quem a revista, publicada anualmente pelo festival, é dedicada.

"Sou um predador, eu sou um predador" está a dizer valter hugo mãe sentado no palco das Correntes d" Escritas. Calhou-lhe em sorte a mesa dedicada ao O poeta é um predador. E então o escritor conta que na sua vida já andou à caça de abelhas e pirilampos, que caçou as galinhas que escapavam do galinheiro e que teve um cágado que fugiu para as heras durante dois anos. Ao levantar a careca e olhar a plateia, o autor do romance A Máquina de Fazer Espanhóis, disse: "A falta de paciência também é desgraça que chegue. Eu queria ser mais paciente, mas dá-me aquela angústia e preciso de bulir e não há nada a fazer."

Há gente espalhada pelo chão e em pé, nem um único lugar livre. Senhoras, que se vestiram como se fossem à missa para ir ouvir escritores, riem-se às gargalhadas; o mesmo acontece a jovens com ar de terem acabado de sair da frente de um computador na Casa da Juventude ali ao lado.

"Sou um predador assim destes, à caça de amigos por mais esquisitos que os amigos possam ser, a mim já nada me parece esquisito, já cá vi cada coisa. Uma vez uma senhora tinha um buraco tremendo na parte de trás da cabeça porque levara com uma bala e a bala, se calhar mais esperta do que as outras, ao invés de a matar fez-lhe um penteado novo e eu achei que era lindo que uma bala fosse mais esperta do que as outras, e a mulher ria-se, e rimo-nos muito os dois juntos." Mais gargalhadas.

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