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Obituário (1925-2011)

Com Mário Alberto, o "último boémio", desaparece "uma certa Lisboa"

05.10.2011 - 15:04 Por Cláudia Sobral

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O cenógrafo Mário Alberto em 2002 O cenógrafo Mário Alberto em 2002 (Foto: David Clifford/arquivo)
O cenógrafo ajudou a revolucionar o teatro de revista e co-fundou as companhias A Barraca e Teatro Adoque.

Todos se lembram dele assim. "O Mário Alberto ali vai. Está a subir a Avenida e vai direitinho ao Parque [Mayer], onde vive e sonha e acredita." O jornalista Armando Baptista-Bastos descreveu-o assim, no prefácio de IVAngelho II Mário Alberto, publicado há perto de dez anos. Morreu ontem Mário Alberto, "o último boémio de Lisboa", segundo este amigo e companheiro do cenógrafo nessa "boémia criativa". O funeral sai hoje às 15h30 da Sociedade Portuguesa de Autores para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Mário Alberto foi cenógrafo, pintor, figurinista, profissional de teatro, cinema e televisão. Chegou a dar aulas de cenografia.Co-fundou duas companhias de teatro, Adoque e A Barraca, e é tido como um dos responsáveis pela renovação do teatro de revista, com O Fim da Macacada, É Pró Menino e Prá Menina e Tudo a Nu.

"Pedradas no charco da produção teatral desse tempo", escreveu o jornalista Viriato Teles numa entrevista ao cenógrafo, publicada no seu livro Contas à Vida (Ed. Sete Caminhos), em que entrevista 20 personalidades que viveram o 25 de Abril. "Pegaram na revista e deram-lhe uma volta grande", conta. "Claro que se transformou num instrumento de luta contra o regime."

Liberdade. "A maior paixão da vida dele", diz o jornalista João Paulo Guerra, irmão da actriz Maria do Céu Guerra, com quem Mário Alberto teve um dos seus três filhos (tinha outra filha em Barcelona e um filho, a quem perdeu o rasto quando a mãe, bailarina russa, lho "roubou", como contava)."Era de algum modo a personificação da própria liberdade - de pensamento, de fazer, de ir sempre mais longe", resume Viriato Teles.

Um homem de paixões

Mário Alberto nasceu no Lubango, Angola, em 1925, mas veio para Portugal aos quatro anos. Para Elvas, depois para Coimbra. Só aos 17 chegou a Lisboa.

Tropeçara no teatro ainda antes de chegar a Lisboa e começar a "fazer bonecos nas paredes". Quando o pai morreu, começou a trabalhar numa fábrica de cerâmica. Vivia em Coimbra. Estudava à noite, na escola industrial. "Foi aí que entrou a minha secção teatral. Vi os grandes espectáculos do prof. Paulo Quintela e do prof. Luís Jacinto. Eram ao ar livre e ensinava-se Gil Vicente com uma linguagem muito mais acessível. Fundámos entretanto um grupo teatral. O nosso ensaiador era o Zé Trego", contou numa entrevista ao PÚBLICO em 2002. Estrearam-se com O Julgamento do Sá Mouco. Como "não tinha jeito para representar", acabou por maquilhar, fazer publicidade aos espectáculos.

Quando o patrão, nos escritórios da companhia de navegação em que trabalhava, em Lisboa, descobriu que era figurante numa peça no Teatro da Avenida e o obrigou a escolher, preferiu o teatro. Comunista e anti-monárquico, todos o descrevem como um homem de paixões. "Quer no trabalho, quer na vida privada", explica Viriato Teles.

Seguia um princípio: se os inimigos não tinham defeitos, inventava-os, conta Baptista-Bastos. Ele próprio admitia que gostava de ter amigos - e inimigos. Ao mesmo tempo - e isso é consensual entre os seus companheiros - era "o melhor amigo do mundo".

"Deixa saudades, mas também nos deixa a certeza de que não viveu em vão", acredita Viriato Teles. "Para além do trabalho de cenografia, mais efémero, deixa a pintura, que tem um traço muito distintivo. Um quadro de Mário Alberto não pode ser de mais ninguém."

Expôs pela primeira vez na Galeria de Raymond Duncan, no final da década de 50. Em 1957, inscreveu-se na Académie de la Grande Chaumière, em Paris, graças a uma bolsa de Beatriz Costa, que, segundo o próprio, chegou a querer casar com ele. Foi aluno dos pintores Yves Brayer e Henri Goetz.

"Um enorme presépio"

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