Há três anos, Jeremy Greenspan (com Matt Didemus, os Junior Boys) estudava a música de Cole Porter, Gershwin ou Frank Sinatra, porque lhe interessava compreender como era a música antes de o rock & roll se ter afirmado. Ou seja, antes da energia e da intensidade terem substituído a elegância como valores essenciais da cultura pop. Não espanta que a música dos canadianos pareça deslocada no tempo, alimentada por ideias como silêncio, nostalgia, serenidade. Ao terceiro álbum, os objectivos não se alteraram: fazer canções de teor clássico a partir de programações e texturas electrónicas.
No primeiro álbum, "Last Exit" (2004), havia electrónicas de estrutura pop e configurações rítmicas que remetiam para o hip-hop ou para o R & B. No segundo, "So This Is Goodbye" (2006), a inspiração vinha do lado mais profundo da música house e "disco" e da pop electrónica dos anos 80 menos revolvida, dos Associates aos Blue Nile, dos Scritti Politti aos It's Immaterial. Agora partem dessas mesmas coordenadas, mas atribuem-lhe uma tonalidade ainda mais evocativa e romântica, em canções que se desenvolvem à nossa frente como se fossem rigorosas aguarelas sonoras, aperfeiçoadas por resíduos digitais, vozes lânguidas, cadências em câmara lenta e um entendimento minucioso de formas, tempos e espaços. Quase todas as canções projectam a mesma luz, mas algumas como "Work", "Dull to pause", "Hazel", "What it's for" ou "Sneak a picture" distinguem-se, constituindo exemplos felizes do que se pode fazer quando se encara a memória como ponto de partida e não como fim em si mesmo. Quando se faz música a partir de sequenciadores ou ordenadores, "é fácil embriagarmo-nos pelas suas possibilidades, o que é limitador"m diz Jeremy Greenspan Em "Begone Dull Care" nada disso acontece. Apesar do rigor formal, em todas as canções adivinhamos seres humanos com sensações, dúvidas e certezas, operando com as suas ferramentas. Magnífico.


