Escritores portugueses e franceses lamentaram hoje a morte do editor Joaquim Vital, o fundador da chancela La Différence que morreu ontem em Lisboa aos 62 anos.
Em Paris, Joaquim Vital foi o responsável pela edição de textos de vários escritores portugueses como Sophia de Mello Breyner Andresen, Urbano Tavares Rodrigues e Eça de Queirós.
O escritor Urbano Tavares Rodrigues recordou o editor como uma “figura brilhante de uma grande riqueza cultural”. O autor manifestou-se profundamente consternado com a morte do editor, com quem tinha almoçado ontem, elogiando-o como “um grande divulgador da cultura portuguesa”. “Foi uma figura admirável”, disse.
Também o poeta e tradutor Vasco Graça Moura lamentou a morte de Joaquim Vital, recordando o “empenho na divulgação da cultura portuguesa”. “O movimento de difusão da cultura portuguesa que criou em França não tem preço”, referiu o escritor, cuja obra está publicada naquele país pela La Différence.
“As traduções que ele fez foram um acto de amor. Ele sabia gerir muito bem os aspectos artesanais da edição e as relações pessoais com os autores”, sublinhou Vasco Graça Moura.
O historiador, tradutor e ensaísta francês Pierre Léglise-Costa, que trabalhou em vários títulos editados pela La Différence, considerou a morte de Joaquim Vital “uma grande perda” para a edição francesa. “Joaquim Vital tinha ideias formidáveis de edição e tinha a grande coragem de lançar poesia em França. Qualquer pessoa ligada ao meio literário francês conhecia La Différence”, afirmou Pierre Léglise-Costa, em Paris.
Léglise-Costa traduziu para Joaquim Vital “Les Lettres de Paris”, de Eça de Queirós, “o Eça mais vendido em França, com 20 mil exemplares”.
O tradutor recordou também que Joaquim Vital editou em França obras importantes de Fernando Pessoa e ensaios de temática pessoana da autoria de José Blanco ou José Gil.
Léglise Costa recorda também a colecção de poesia europeia e as “óptimas edições de arte” de Joaquim Vital, por exemplo de Júlio Pomar e José de Guimarães.
O ensaísta francês evoca “a figura física impressionante” de Joaquim Vital e uma vida agitada que se reflectia na frequente mudança de casa. “Conhecia-o há trinta anos e, durante esse tempo, nunca jantei duas vezes na mesma casa quando ia visitar o Joaquim Vital”, recorda. “Também nunca o vi sem ele estar a fumar”, acrescenta Pierre Léglise-Costa.
Joaquim Vital saiu de Portugal bastante jovem devido às suas posições políticas contrárias à ditadura do Estado Novo.
“Continuou sendo um homem que sempre defendeu uma posição portuguesa na edição e era uma combinação estranha de ideias de grande burguesia com convicções de extrema esquerda”, resumiu Pierre Léglise-Costa.
O presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes, lamentou a morte do amigo e sublinhou que ele foi “uma figura nuclear na difusão da cultura portuguesa em França”. O escritor recorda Joaquim Vital como “uma personalidade cativante que, no meio de dificuldades e incompreensões, promoveu a nossa literatura lá fora”.
O corpo de Joaquim Vital encontra-se no Instituto de Medicina Legal, onde deverá ser autopsiado. O funeral está previsto para terça-feira mas ainda não foi anunciada a hora nem o local.



