Banda Desenhada

Astérix: mais 50 anos a bater nos romanos

29.10.2009 - 10:44 Por Carlos Pessoa

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A nostalgia tomou conta das comemorações do 50º aniversário do herói de BD A nostalgia tomou conta das comemorações do 50º aniversário do herói de BD (DR)
À hora anunciada, Albert Uderzo chega com a mulher. No pátio interior do Museu de Cluny, a um passo da Sorbonne e a dois da Catedral de Notre-Dame de Paris, uma pequena horda de jornalistas e operadores de câmara aguarda o criador e desenhador de Astérix.

É o tipo de recepção que, em Portugal, só estamos habituados a ver com políticos, estrelas de cinema ou grandes nomes da canção. Mas nunca com um autor de histórias aos quadradinhos. Em França, porém, as coisas são bastantes diferentes, pois a BD goza de uma popularidade gigantesca e constitui um negócio que movimenta milhões de euros por ano. E, quando se trata de Astérix, a festa está garantida.

O personagem criado por René Goscinny e Uderzo em 1959 é muito mais do que um herói popular. É um ícone da BD franco-belga que tem alimentado, com as suas divertidas aventuras, o imaginário de gerações sucessivas de leitores. E constitui também um símbolo por excelência da consciência colectiva francesa, que se revê nas histórias que envolvem a aldeia gaulesa que resiste aos romanos. Surgiu pela primeira vez em 29 de Outubro de 1959 no nº1 da revista Pilotee, desde então, sucederam-se 33 aventuras, filmes de animação, três longas-metragens com actores reais, um parque temático e um sem-número de produtos derivados que alimentam o merchandising da série.

Uderzo, 82 anos, percorre lentamente a exposição comemorativa do 50º aniversário, que abriu ontem, onde está presente um pouco dessa longa e rica história. Detém-se bastante tempo em cada núcleo, comenta os materiais expostos, recorda petites histories associadas. "Divertíamo-nos [Uderzo e Goscinny] a fazer Astérix. Foi feito para entreter os franceses", diz a respeito dos primeiros esboços de Astérix.

Uma foto dos dois autores durante uma sessão de autógrafos inspira-lhe um comentário: "Lembro-me desta fotografia ter sido feita. Foi nos Armazéns Printemps, onde estávamos para dedicar álbuns. Estranhamente, não apareceu ninguém e nós estávamos muito aborrecidos..." Parece surpreendido com a inclusão da velha máquina de escrever Keystone Real em que Goscinny dactilografou os diálogos das primeiras 24 pranchas da primeira aventura da série, Astérix, o Gaulês.

Anne Goscinny, filha do argumentista falecido prematuramente em 1977, chega atrasada e reúne-se a Uderzo. Prosseguem juntos a visita à exposição, evocam memórias, trocam comentários entre si, respondem às perguntas dos jornalistas.

Viagem ao passado

O espaço da exposição não podia ter sido mais bem escolhido: é o grandioso e bem conservado frigidarium - recinto em que os utilizadores das termas romanas entravam, nas únicas de Paris que chegaram até hoje - do Museu de Cluny (Museu Nacional da Idade Média). Apesar da ironia, não surpreende, por isso, que a selecção das pranchas tenha privilegiado as que mostram a arquitectura romana, e sobretudo as piscinas das termas.

Extraídos dos arquivos de Uderzo e da família de Goscinny, os documentos ilustram a génese e desenvolvimento da série ao longo dos anos, assim como os processos de fabricação de uma história, desde os esboços a lápis até à aplicação de cor, passando pela balonagem e passagem a tinta.

O corpo central da exposição é composto por 30 pranchas de Uderzo nunca mostradas em público. E depois há os testemunhos da cumplicidade - que se transformaria numa amizade sólida - entre Goscinny e Uderzo, em particular as viagens feitas (por vezes com as respectivas mulheres) para recolher documentação acerca dos palcos das aventuras.

A celebração dos 50 anos de um herói de BD com a estatura de Astérix não se confina ao interior de um museu. O guerreiro gaulês e os seus amigos já começaram a invadir espaços exteriores de Paris, impondo-se na fachada de monumentos e exibindo-se em instalações colocadas em pontos estratégicos da cidade.

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