• Aprender a dizer não aos pedidos dos filhos
  • Mais de nove mil milhões de petróleo
  • Era uma vez no Oeste

Artigo publicado no dia 25/07 durante o Festival de Avignon

As cinzas que nos fazem

27.10.2011 - 16:50 Por Tiago Bartolomeu Costa

  • Votar 
  •  | 
  •  0 votos 
Imagem do espectáculo "Sul concetto di volto nel figlio di Dio" Imagem do espectáculo "Sul concetto di volto nel figlio di Dio" (DR/Klaus Lefebvre)
O libanês Wajdi Mouawad, que diz querer "morrer nas praias de Sófocles", e o italiano Romeo Castelluci, para quem o teatro "só existe no imaterial", trouxeram a Avignon as raízes da nossa civilização: a falência do mundo como foi descrita pelos tragediógrafos gregos, após o abandono dos deuses, e os limites da abnegação cristã, como foi inscrita nos evangelhos.

De um lado o amor, a justiça e a vingança, como no-las ensinaram os gregos, encravadas numa pedreira, a Carrière de Boulbon, lugar mítico do Festival de Avignon, a 20 quilómetros da vila (foi aqui que Peter Brook estreou “Mahabharata”, em 1985). Do outro a piedade, a clemência e a humildade, como nos pediu Jesus Cristo, inscritas num teatro clássico, o Ópera-Théâtre, onde Massenet estreou algumas das suas óperas, no centro da vila. Ao mesmo tempo olhares sobre o que nos forma, o que temos como referência e nos constrói. Ainda?

Em Boulbon o encenador de origem libanesa e radicado há anos no Quebeque, Wajdi Mouwad, artista associado em 2009, encena a primeira parte de um longo projecto que só verá a sua conclusão em 2015. Até lá as sete tragédias que o autor grego Sófocles escreveu, as que sobreviveram de um número total de 143, serão encenadas em capítulos, agrupadas tematicamente. Assim, pudemos ver agora “As Traquínias”, “Antígona” e “Electra”, impondo o tomo “As Mulheres”. Em Janeiro de 2014 estrear-se-á “Os Heróis”, juntando “Ajax” e “Édipo Rei”. E, um ano depois, “Os Mortos”, que junta “Filoctetes” e “Édipo em Colono”.

Explica Wajdi Mouawad que "não se tratou de actualizar as tragédias", mas de desenhar "uma ontologia" das próprias tragédias, evidenciando os temas que lhe são comuns, mais do que seguir a narrativa. "Renunciei, efectivamente, à narrativa", explicou em conferência de imprensa. "Estas mulheres estão ligadas ao poder e são mulheres num mundo de homens", sublinha. Djanira, em “As Traquínias”, representará o amor (mata o seu marido por engano, quando queria matar a sua nova mulher, e suicida-se), Antígona é a figura maior que quer enterrar o seu irmão, a despeito das leis de Tebas ditadas por Creonte. Morrerá por desobedecer. Electra jura vingança pela morte do irmão, Orestes, até, com este, matar a mãe, Clitemenestra e o seu padrasto, Egisto, para vingar a morte do pai, Agamémnon. "É evidente como o autor, de peça para peça, pressente a queda e falência de um mundo que é o seu. Se “As Traquínias” mostram um mundo que honra o que foi sublime, Electra clarividência um fim de mundo de sangue e de leis impostas pela violência."

"(Não és) o meu pastor"
O gesto de Mouawad, numa encenação que carece de maior dramatismo e mesmo de actores que consigam suportar as duras condições de Boulbon (ar livre, vento, seis horas de representação) a partir da belíssima tradução do poeta Robert Davreau, mostra essa falência. O encenador dá ao ex-vocalista do grupo Noir Désir, Bertrand Cantat, o lugar do coro. Ausente da peça por problemas judiciais, a sua voz funda substituiu o coro e materializa a ausência dos deuses, que abandonaram os homens que os veneraram. "Estamos perante a queda dos inocentes", diz Mouawad.

É também disso que trata Romeo Castelluci, italiano, provocador, artista associado de Avignon em 2008, actual director artístico da secção de teatro da Bienal de Veneza.
Castelluci constrói três grandes planos-sequência, marcados, ao fundo, pela reprodução do quadro Salvator Mundi, de Antonello da Messina, que mostra o rosto de Jesus Cristo que nos olha, "longamente". A primeira, e a principal, mostra um pai, velho, com incontinência renal, ajudado pelo filho. A incapacidade do pai em se controlar põe à prova o amor do filho. Explica o encenador que, assim, se opera a transferência do texto para o corpo, e do palco para o espectador, que deverá "enfrentar os sentimentos que invadem o filho, ou seja, a piedade, a paciência, o amor, mas também a cólera e a raiva". E explica desta forma a dimensão menos literal colocada em cena: "A dimensão escatológica ultrapassa todo o realismo e a situação torna-se metafísica." O pai, depois de sujar sofá, cama, mesa e o seu próprio corpo, despeja uma garrafa de fezes em si mesmo, abrindo campo à especulação sobre a sua inocência e impotência.

Estatísticas

  • 26 leitores
  • 0 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1518539

Comentário + votado

X

Mais em Cultura (9 de 11 artigos)

Os peritos consideraram que o fado tem "um forte sentimento de pertença e ligação a Lisboa" Fado entre os sete mais elogiados para património da humanidade