No primeiro dia de concertos “a sério”, os estreantes Eli “Paperboy” Reed, Gallows, Enter Shikari e Caribou proporcionaram bons concertos. Os Cult trouxeram nostalgia.
Paredes de Coura, quinta-feira, 17h00. Com a temperatura muito acima dos 30 graus centígrados, a vila está quase deserta, apesar dos milhares de festivaleiros que acampam ali mesmo ao lado. No palco Ibero Sounds, destinado a bandas promissoras, os espectadores que prestam atenção à pop melodiosa dos espanhóis Nouvelle Cuisine contam-se pelos dedos das mãos. A explicação para este deserto encontra-se um pouco mais abaixo, nas margens do rio Tabuão, junto ao parque de campismo. É aqui que o m² está caro, sendo quase impossível encontrar um espaço para estender a toalha. Por outro lado, poucos pareceram recear as supostas salmonelas e evitar o banho no rio. Em tempo de crise, também notamos outra tendência: menos gente em volta dos espaços de restauração. Talvez os cozinhados do campismo tenham contribuído para que o recinto apenas se fosse compondo a partir da fase final da actuação dos Gallows, já perto das 22h. Não se terá chegado às 20.000 pessoas, mas o anfiteatro esteve composto.
A noite do palco principal começou com as Vivian Girls – guitarra, baixo, bateria e voz, em formato power trio. Ao primeiro acorde, seriam 100 as pessoas de pé junto ao palco. No final da actuação, o número nem terá chegado a duplicar, mas muitos espectadores foram-se sentando ao longo da colina, em zonas de sombra. O indie pop apunkalhado – em que conta mais a atitude do que a perfeição técnica – é a receita das nova iorquinas, que conseguiram uma actuação capaz, pelo menos, de entreter. De seguida, entrou em palco Eli “Paperboy” Reed – acompanhado dos True Loves (guitarra, baixo, bateria, piano e secção de sopro) – e passamos do rock para a soul. Se a afinação vocal não é o forte das Vivian Girls, já Paperboy Reed esforça as cordas vocais até ao limite – não é por acaso que há quem lhe chame “o novo James Brown”. A banda do músico natural de Boston apresentou-se no final de uma digressão europeia e estava naturalmente oleada. Suando as estopinhas até mais não – todos os músicos terminaram a actuação em tronco nu –, o colectivo tentou convencer o público que de que a soul e o funk não têm de ser géneros estranhos num festival de música moderna e pode-se dizer que o conseguiram.
A fúria dos Gallows
Numa noite no mínimo eclética, seguiu-se o punk-hardcore dos Gallows. A banda pôs o pé no acelerador desde o primeiro momento, incitando os fãs ao mosh. E lá se viram corpos a esvoaçar e uma circle pit – espécie de roda gigante de mosh –, se bem que o pedido de uma “pirâmide humana” se tenha ficado pelas intenções. Coesos e inventivos q.b., os Gallows têm uma postura rebelde e proletária: o carismático vocalista Frank Carter cuspiu frequentemente, repreendeu o público sentado nas áreas mais afastadas do palco – “bebam uma cerveja por nós e libertem-se” – e dedicou Abandon ship ao pessoal que “põe este festival de pé”, como os funcionários da limpeza e os seguranças. Também não faltaram as referências à terra natal (Watford, em Inglaterra), um “buraco” de onde a banda conseguiu emergir. Por outro lado, não há como negar a força de canções como London is the reason ou Black eyes. Seguiram-se os Enter Shikari, constituindo uma espécie de bloco dedicado às sonoridades mais pesadas. Porém, onde os Gallows aplicaram força, os Enter Shikari aplicaram técnica. Na sua música cabe quase todo o que é grandiloquente: riffs poderosos, vocalizações guturais, coros épicos e ritmos electrónicos pré-gravados. Cada música é uma verdadeira montanha russa – Juggernauts foi um bom exemplo – que, valha a verdade, nunca parece uma manta de retalhos. Perante uma plateia já composta, voltou a haver mosh – e a banda deve ter ganho novos fãs, pelo menos entre o público sedento de música progressiva.



