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António Torrado: "Já escrevi sobre tudo e mais alguma coisa"

21.09.2010 - 19:44 Por Rita Pimenta

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 (Maria João Fragateiro)
Deve haver sempre uma estante fechada, mas de fácil acesso. Pode até escrever-se "livros proibidos" na prateleira mais alta da estante e deixar ficar uma escada por perto. Ideias e memórias de António Torrado: "Eu sacava da biblioteca do meu pai os livros proibidos. Tinha uma chave. Abrir abria-se bem, para fechar é que tinha mais dificuldade. Li muita coisa sem perceber o que estava a ler."

Mas também leu livros que entendia e de que gostava: "História de Dona Redonda e de Sua Gente, de Virgínia de Castro e Almeida; as obras de Erich Kästner; A Biblioteca dos Rapazes; Jack London; Júlio Verne." O seu fascínio por romances de capa e espada fê-lo querer praticar esgrima. Mas foi traído pela vista e pelos óculos. "Sou um desportista falhado", diz, entre o resignado e o divertido.

Não estava previsto tornar-se escritor, mas aconteceu. Depois de uma tentativa de estudar Ciências Económicas para dar seguimento à empresa comercial do pai, percebeu que "não tinha jeito nenhum para aquilo". Foi então para Direito. Mas adormecia nas aulas: "Dava-me muito sono." Um dia, um professor disse-lhe: "Quando estiver com sono, não venha à aula. É que me desmotiva muito"." Compreendeu, mas envergonhou-se tanto que foi para a Faculdade de Letras. E estudou Filosofia.

Acabou por se tornar escritor e, segundo Leonor Riscado, professora de Literatura para a Infância e Juventude na Escola Superior de Educação de Coimbra, "um criador de primeiríssima água. Sherazade dos tempos modernos, alia à sólida cultura do filósofo a prodigiosa imaginação de um Andersen. A capacidade única de criar enredos surpreendentes - de preferência para as crianças, mas também para os adultos - é sustentada por palavras enxutas, envoltas em marcas de oralidade. Na sua escrita, gerida com mão hábil de um dramaturgo residente, as contas do colar vão-se juntando no fio com que constrói contos, poemas e textos dramáticos. O olhar de António Torrado sobre as pequenas e grandes coisas, as pessoas, o mundo, afinado pelo registo da ironia, do humor ou da ternura abre o apetite dos leitores, que saboreiam o delicioso mil-folhas que é a sua obra".

Pelo primeiro texto que escreveu para o Diário Popular, recebeu "cem paus" (100$, €0,50). "Dava para almoçar com a namorada, lanchar com a namorada e levá-la ao cinema."

Alguém que diga mal

O conto curto é a sua forma ideal de expressão. "É o meu modelo de escrita: insinuar mais do que dizer; sugerir mais do que declarar." António Torrado, 71 anos, já escreveu "perto de mil histórias". Mas também criou peças de teatro, letras de fados, argumentos para filmes e séries de televisão, escreveu textos para a rádio e poesia. "Já escrevi sobre tudo e mais alguma coisa."

Os seus 40 anos de vida literária foram o pretexto para uma homenagem na abertura da XI Edição das Palavras Andarilhas em Beja, na quinta-feira.

Quando falou com a Pública, o escritor ainda não sabia das surpresas que lhe estavam reservadas no encontro, mas já dizia, bem-disposto: "Vai ser uma chumbada, todos a dizerem bem. Se houvesse alguém que tivesse a coragem de dizer mal. Acho que vou fazer esse apelo."

Leitores fiéis

António Torrado sabe que "se escreve para o efémero, para o transitório. Os leitores estão em trânsito para outros livros". No entanto, reconhece que a faixa de público com que mais trabalha, as crianças, "é muito generosa. Quando gostam, são sistemáticas. Querem ler tudo do mesmo autor e têm o gosto da colecção."

E dá o exemplo do filho mais velho, que prometeu que não leria outros livros sem antes ter lido todos os de Jack London. O próprio Torrado manteve-se fiel a Erich Kästner enquanto pôde. E já adulto ainda descobriu um livro (A Ala Volante) deste primeiro autor a receber o prémio Hans Christian Andersen.

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