António Jorge Pacheco: É muito mais importante desenvolver a ONP do que ter a Filarmónica de Berlim a tocar no Porto

05.01.2009 - 07:00 Por Sérgio C. Andrade
António Jorge Pacheco (n. Porto, 1960) é desde ontem o novo director artístico da Casa da Música, sucedendo a Pedro Burmester. Não é um cargo inédito para o novo responsável, que já o assumira interinamente entre Novembro de 2005 e Março de 2006. Quando foi anunciada, em Junho passado, a sua escolha foi apresentada como uma solução “consensual e de continuidade”, o que não causou estranheza tratando-se de alguém que, desde 1999, trabalhou com Burmester no delinear do projecto da Casa da Música para o Porto 2001, além de ser a única pessoa que, desde essa data, se manteve ininterruptamente ligada à instituição.
Quando chegou à Casa da Música, António Jorge Pacheco tinha já um percurso na área da programação, nomeadamente no Europarque, na Feira, mas também como consultor na Casa das Artes de Famalicão e na Fundação Luso-Internacional. Também fizera crítica de ópera, dando expressão a uma das suas afinidades electivas, apesar de a sua formação ter passado pela engenharia e pelas matemáticas. É, desde 2004, membro da direcção da Rede Varèse, e, desde 2006, do European Ensembles Network, lugares a que chegou, principalmente, por via do seu trabalho com o Remix Ensemble, grupo residente da Casa da Música, que alcançou já grande notoriedade internacional.
Quando foi apresentado como novo director artístico da Casa da Música, foi dito que se tratava de uma escolha natural e de continuidade. Qual vai ser a sua marca?
Em primeiro lugar, há, de facto, uma continuidade. O projecto tem uma identidade, que está afirmada no contexto nacional e começa a afirmar-se no contexto internacional. Portanto, as expectativas são altas, o desafio é grande, mas tendo sido eu colaborador próximo do Pedro Burmester desde 1999, e estando já lançado o programa, praticamente inteiro, de 2009 – com o qual, de resto, me identifico totalmente, porque participei nele –, a primeira marca será a continuidade. Mas continuidade não é estagnação. Os tempos mudam, aparecem crises, que podem obrigar-nos a reformular alguns aspectos da nossa actividade. Mas as minhas grandes preocupações situar-se-ão ao nível do desenvolvimento do enorme potencial existente. A Casa da Música tem uma situação privilegiada e única no mundo: tem dentro da sua organização, e não simplesmente em residência, como acontece com outras casas, uma orquestra sinfónica, o Remix Ensemble, uma orquestra barroca e, no final deste ano, terá um coro profissional. E tem o controlo directo, artístico, sobre todas estas estruturas
É uma situação única a nível mundial?
Não conheço outra. O que quer dizer, desde logo, que há uma estratégia e uma aposta clara em desenvolver o nosso próprio modelo. Nós somos produtores, de facto. Não somos uma sala de acolhimento. Isso baliza logo o projecto. Uma das minhas preocupações irá no sentido de desenvolver esse potencial.
Como vai fazer isso, em termos práticos?
Para começar, temos como directores musicais em cada um dos quatro grupos personalidades de reputação e com créditos internacionais confirmados. Isso situa as expectativas muito alto. A única instituição a criar será o Coro, que sendo um projecto novo, terá da minha parte uma atenção muito especial.
Participou na escolha de Paul Hillier [que vai formar e dirigir o coro]?
Foi uma escolha de equipa, como quase todas as decisões magnas e importantes na Casa da Música. O Paul Hillier foi nomeado ainda no tempo do Pedro Burmester como director artístico. A maior responsabilidade é dele, mas é óbvio que eu tive alguma influência na decisão. A proposta foi feita em Abril, quando Paul Hillier – que, se quiser, pode dirigir qualquer coro no mundo – dirigiu um concerto com o Remix Ensemble. Nessa altura, ele, estando dentro da Casa e apercebendo-se do seu projecto artístico e da sua dinâmica, sentiu que se identificava com eles, e via aí uma margem de progressão. Era também para ele uma oportunidade de desenvolver dentro de uma grande instituição um projecto novo, começá-lo do zero e moldá-lo à sua imagem.
As audições vão avançar já. Quantos candidatos tiveram?
As audições para o coro começam já em Janeiro. Tivemos 200 candidatos, basicamente portugueses e estrangeiros residentes em Portugal. Pusemos a fasquia bastante alta nas condições de aceitação e da missão das candidaturas, e estamos satisfeitos com o número e com a qualidade das candidaturas. Temos grandes expectativas em relação a este projecto, que faltava, pois estava já inscrito nos objectivos da Casa da Música desde a Porto 2001…


