António Filipe Pimentel: "Admito mudar o Museu de Arte Antiga de local"

19.04.2010 - 11:02 Por Alexandra Prado Coelho
Quando, no final da entrevista, chega a hora de ser fotografado, António Filipe Pimentel, o novo director do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), propõe que seja junto dos Painéis de S. Vicente. Afinal, não é esta a imagem de marca do museu? E para Pimentel "o museu é um palco". É essencial estudar e conservar o acervo, mas é preciso também mostrá-lo. "Um museu não é a Torre do Tombo do património."
Assumiu o cargo no início de Março, depois de a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ter decidido substituir o anterior director, Paulo Henriques, que disse na altura que fora afastado por "não ter perfil de gestor". Pimentel, doutorado em História de Arte e antigo pró-reitor da Universidade de Coimbra, deixou então a direcção do Museu Grão Vasco, em Viseu, que assumira quatro meses antes e aceitou a do MNAA. Mas demarca-se de uma imagem de gestor: "Não sou o homem da Regisconta."
Vê o seu trabalho como gestão cultural, e isso significa criar uma estratégia para o MNAA. Quer fazer dele um desígnio nacional. E isto pode significar questionar tudo menos a herança central do museu. Admite que venha a ser transformado numa fundação. E que venha mesmo a deixar as Janelas Verdes e a instalar-se noutro espaço da cidade. O seu objectivo é que nenhum turista sinta que viu Lisboa, se não tiver visto o Museu de Arte Antiga.
A estratégia para o MNAA parece ter oscilado com os dois últimos directores. Primeiro com a direcção de Dalila Rodrigues, mais virada para uma maior visibilidade do museu, e depois com a de Paulo Henriques, mais centrada num trabalho interno, com as colecções. Como se situa neste contexto? É uma terceira via?
Cada um deles tinha uma visão estratégica focada em ângulos aparentemente opostos; contudo, ambos tinham um ponto em comum: a valorização do museu. Eu tendo a achar que a via certa é a intermédia. O museu é um espaço que tem de conciliar dois horizontes aparentemente opostos, mas que não passam de dois lados de uma moeda.
O lado reflexivo e da conservação é absolutamente fundamental, há um depósito sagrado de património que é confiado ao museu. No MNAA está uma parte muito substancial do que se considera que é património que define Portugal como projecto e na sua relação com o mundo. Isso traz responsabilidades do ponto de vista da investigação. Mas traz também responsabilidades enormes do ponto de vista da comunicação, porque um museu é um palco. Nasceu como o espaço de mobilização de uma comunidade a partir das obras que são expostas, e por trás das quais há sempre narrativas.
Somos escravos da imagem, o museu é um espaço de imagem. É preciso harmonizar as duas leituras: ter da preservação e do estudo uma visão estratégica e instrumental que não se esgota em si mesma. Deve ser mobilizada ao serviço dessa comunicação, que, contudo, não pode nunca sacrificá-la, nem pôr em causa os limites da sua segurança e salvaguarda.
Um museu não é a Torre do Tombo do património. Num arquivo, o que existe é um tesouro de informação que ali está guardado, conservado e é consultado. O nosso tem que ser exibido e permanentemente mostrado em relatos e narrativas.
Os dois directores anteriores gostariam provavelmente de ter conciliado essas duas perspectivas. Mas os recursos são limitados e obrigam a opções. Vai ter um reforço da sua equipa?
Não no sentido imediato. Mas o facto de poder trabalhar com um subdirector [José Alberto Seabra] é um reforço no plano técnico ainda que não no plano físico. Isso permite-me situar muito mais no domínio estratégico, das grandes linhas de orientação e programação, nas relações exteriores, no estabelecimento de parcerias, de elos de toda a espécie, porque um museu como este não pode estar isolado e as solicitações são permanentes.
O que está em cima da mesa é a ideia, que partiu da tutela, de que o próprio museu deve desenvolver um projecto reivindicativo de meios, seja os financeiros em função das necessidades que vamos tendo, sejam os recursos humanos.
A direcção bicéfala já está então em funcionamento?
Está a funcionar no terreno, embora não esteja ainda em termos formais, porque existem meandros jurídico-administrativos que ainda não estão resolvidos.


