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Why?

Alopecia

20.03.2008 - 16:39 Por João Bonifácio, PÚBLICO, Tomlab; distri. Flur

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Ele, Yoni (ou Why?), tem andado a fazer isto desde o início: unir – como um miúdo de Legos na mão, encantado com as suas próprias limitações motoras – o improvável e o clássico, o rafeiro e o desenhado a regra e esquadro, o sujo e o melódico.

Why? foi um terço do colectivo de hip-hop branco cLouddead que, em dois magníficos discos, usando as lições contidas nas partes instrumentais dos Anti-Pop Consortium e juntando sons de órgãos repescados às musiquinhas dos computadores Spectrum dos anos 80 e harmonias vocais que soavam aos Beach Boys com prisão de ventre, colocaram o hip-hop branco numa zona mental de espelhos retorcidos, em que o negro era um arco-íris psicadélico, em que o sample de uma batedeira conduzia ao altar do balanço. A solo, Why? estreou-se com "Oaklandazulasylum", em 2003, dando uma guinada em direcção a uma folk retorcida e regressiva – a voz dele, liberta da companhia do rapper Doseone, lembra um canto de menino com cólicas – porém, atravessada por um inusitado sentido pop. Em "Elephant Eyelash", de 2005, as canções pareciam endireitar-se, mesmo que ainda se notasse a corcunda dos sons estranhos. A dada altura, Yoni decidiu que Why? passaria a designar uma banda. "Alopecia", o recente disco, é como um milagroso salto em altura em que os pés do atleta tocam na vara e esta, num último instante, equilibra-se: campainhas, pianos, harmonias vocais, órgãos estranhos, samples, flautas, xilofones, "riffs" derivados do blues acústico, metais – todos dão as mãos e caminham, torpes, em direcção a um precário altar melódico que, camada após camada, revela uma obsessiva construção. Exemplo: a espantosa "Good Frida" (relato voyeurístico de um relação homossexual em público) tem o dito "riff" manhoso, cheio de pausas, o registo "blasé" de Why?, as harmonias com "aaas" em fundo, remendo de cítara, ligeiro trejeito de "feedback" de guitarra em fundo, novos coros, voz anasalada no que não é um refrão, mudança de jogo de pratos de choque, etc., etc., adicionando, tirando, completando, desequilibrando o ouvinte. "These few presidents" arranca à Young Marble Giants antes de valsar por entre batidas digitais e depois – hossana nas alturas – abrir num refrão com bombo e tarola a reverberarem no fundo dos órgãos "vintage". A ponte de saída do refrão traz uma harpa e piano eléctrico. "The hollows" instala um tom dramático, empinado na guitarra repetitiva, para, novamente, desabrochar no refrão. Os "nananas" parolos de "By torpedo or crohns" são uma dádiva abençoada à melodia. Há pequenos assobios a atravessar "Gnashville", que se arrasta na melancolia do piano como um comboio de província de apeadeiro em apeadeiro. Toda a pop devia ser como "A sky shoeing horses under", rapalhada seca e lenta sobre a figura acelerada de xilofone, toda a pop devia sair de aparentados de violoncelo para "beats" digitais como "Twenty eight", toda a pop devia ser como a "lullaby" distópica de "Simeon's dilemma" no momento em que o bombo acelera. Toda a pop devia ser assim: melodicamente retorcida, harmonicamente irrepreensível e complexa como o cérebro de Brian Wilson em 1967. Toda a pop devia ser assim.

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