Depois de uma digressão nacional com vários espectáculos, Júlio Pereira apresenta hoje em Lisboa, no CCB, o seu mais recente disco, Geografias, lançado em 2007. É um evento raro, porque ele já não tocava em Lisboa, num concerto seu, há década e meia. Há razões para isso. "O facto de ser multi-instrumentista é uma seca, porque, se nas gravações toco vários instrumentos, em palco tenho que escolher. Esse é um problema. Outro é quem me vai acompanhar, porque é preciso ensinar a outra pessoa o que aprendi - e essa pessoa, por melhor que toque, não vai tocar como eu, à minha maneira."
Mas os tempos levaram-no a reconciliar-se com os palcos. "Agora sim, gosto de tocar ao vivo. E é a primeira vez que isso me sucede. Porque o Geografias é o único disco, dos vários que gravei, em que compus sempre com outro músico a acompanhar, que é o Miguel Veras. E que está comigo agora em palco. Eu toco bandolim, ele viola e há ainda a Sofia Vitória, que toca teclas, controla as máquinas e canta com uma voz..." Além deles, estão em palco vozes femininas do grupo Cramol.
Os arranjos para os temas do disco são outros, mas Júlio Pereira garante que a sonoridade está lá, toda. "Perdi o medo das máquinas. Se em disco eu sempre utilizei computadores, por que não usá-los em palco?" O concerto parte do disco Geografias, mas tem outros temas do seu reportório e também temas de José Afonso "dos menos conhecidos do público": Senhor arcanjo, Nefretite não tinha papeira, Tenho um primo convexo. "Este último, por exemplo, permite - e é a primeira vez que faço isto na vida - improvisar em palco, totalmente, sem nada pré-concebido. E isso deve-se muito à minha experiência com o Zeca. Ele, às vezes, batia-me à porta para irmos juntos à Gulbenkian ver concertos de free jazz, que é coisa que poucos imaginam!"


