Cabe cá tudo. Cantilenas índias. Disparos de cowboys. Rasgões de rock psicadélico que parecem ter sido provocados por Jimi Hendrix. Balanços de funk cósmico como Dâm-Funk por via indirecta de Sun Ra. Visões dos quatro cantos do mundo como em MIA. Uma soul distorcida como nos TV on the Radio.
Electrónica mastigada como em Aphex Twin. Um hip-hop dormente como os Sa-Ra Creative Partners. Um dub pedrado como em Lee Perry. Uma voz nasalada, intrigante, fazendo lembrar remotamente Tricky nos tempos áureos da década de 90. Um Iggy Pop menos enfurecido e mais embriagado. Um Tom Waits, se em vez de uísque bebesse tinto. Um professor de ioga transfigurado em cantor. Gonjasufi, incarnação musical de Sumach Ecks, americano, a viver à beira do deserto do Nevada, acaba de lançar um daqueles manifestos que trazem consigo o tipo de estranheza familiar que conquista. Na construção do álbum de estreia contou com a contribuição essencial dos produtores Mainframe, Gaslamp Killer e dos cada vez mais importantes Flying Lotus. Foram os últimos que o deram a conhecer à editora britânica Ninja Tune, que apostou nele. Cabe cá tudo, é verdade. E daí podia sair quase nada. Mas não é esse o caso. Aqui existem desvios, incongruências, contradições, referências que se encavalitam noutras referências, mas parece existir sempre um ânimo que nos foca num destino. Sons feitos de outros sons, sobrepondo-se e alterando-se e nesse fluxo hipnótico e imparável, um horizonte novo nasce. Há por aqui uma sensibilidade pop que permite que no meio do caos exista alguma clareza. Um sem-número de alusões destiladas por uma qualquer máquina do tempo a precisar urgentemente de reparação. O futuro não passa por aqui. Está aqui. E o passado. E o presente. Tudo.



