À face da Terra já não há nada para descobrir. É uma tristeza

03.11.2009 - 19:08 Por Carlos Câmara Leme
Foram os seus estudos sobre os índios da Amazónia que nos fizeram olhar para estes povos de outra maneira. Claude Lévi-Strauss, o antropólogo que na América mudou de nome por causa dos jeans, deu outro sentido às sociedades primitivas. Uma entrevista com o autor de “Tristes Trópicos” e as fotografias que fez durante as suas viagens.
Odeia viagens e exploradores. No entanto, é por um relato, o da partida, que começa um dos seus livros mais famosos — “Tristes Trópicos”. É aí que o antropólogo Claude Lévi-Strauss, um dos grandes pensadores do século XX, conta a sua viagem à Amazónia, quinze anos depois de ter chegado a uma das últimas fronteiras a explorar na Terra. Estava em 1935, quando começa a estudar as sociedades primitivas — as tribos índias da Amazónia.
Hoje, com 90 anos, este homem que influenciou de maneira determinante o desenvolvimento das ciências sociais neste século, não quer dizer nada de especial sobre o mundo. Porque para além de ser totalmente céptico, quando começou a trabalhar havia dois mil milhões de pessoas. “Esse número triplicou, o que dá qualquer coisa como seis mil milhões de pessoas. É um mundo que não tem qualquer semelhança, ou relação, com o que conheci quando era jovem.” Mas Claude Lévi-Strauss, que na América mudou de nome por causa dos jeans, foi sempre assim, a sua opinião era apenas mais uma opinião.
“O mundo começou sem o homem e acabará sem ele”, escreve quase no fim de “Tristes Trópicos”, certamente o seu livro mais lido. Na altura, tinha 47 anos, hoje celebram-se os seus 90 anos. Como é que vê o mundo?
Bom, é o tipo de perguntas a que me recuso responder.
Porquê?
Recuso-me a tecer quaisquer considerações porque esse não é o meu trabalho. O que faz com que eu não tenha, pelo menos é a minha opinião, nenhuma autoridade para fazer qualquer espécie de julgamentos sobre o estado mundo.
Não sou apenas eu que não tenho autoridade para falar sobre o estado do mundo. É um assunto de tal forma complexo, que não vejo muito bem quem é que possa ter alguma autoridade para falar sobre ele. Não sabemos nada, essa é a verdade!
Podemos ter preferências, esperanças ou irritações. Mas, repito, não podemos fazer qualquer espécie de juízo acabado.
Bom, se quiser, sobre essa matéria sou um pessimista, ou antes, um céptico total. Não vejo o que possa dizer!
Apesar de odiar as viagens, é como abre “Tristes Trópicos”...
... é verdade, mas há muito tempo — já nem me lembro quando foi a última vez [risos] — que não viajo.
Se insiste dou uma resposta simples, mas que muito provavelmente não o satisfará. Quando comecei a trabalhar, a ensinar Filosofia, quase há 70 anos, a população mundial andava à volta de dois mil milhões de pessoas; no fim da minha existência esse número triplicou, o que dá qualquer coisa como seis mil milhões de pessoas.
Para mim, isso representa qualquer coisa de catastrófico. Absolutamente inimaginável! É um mundo que não tem qualquer semelhança, ou relação, com o mundo que conheci quando era jovem. Como é que quer me pronuncie sobre o seu estado?
A sua primeira viagem é, em 1935, ao Brasil, S. Paulo. Chegou a aprender português?
No Brasil toda a gente falava francês. Dava os meus cursos, na Universidade de S. Paulo, em francês. Claro, que aprendi a falar português, mas o português do interior, dos camponeses de Mato Grosso. Nunca fui a Portugal. Mas tenho pena.
Apesar de falar português, já confessou que quando escreveu “Tristes Trópicos” grafou as palavras portuguesas como elas lhe soavam ao ouvido. O livro estava cheio de gralhas...
Completamente, essa primeira edição, já o disse uma vez, era um monstro [risos].
Em 2000, comemora-se a descoberta do Brasil, por Pedro Álvares Cabral. Acha que ainda se pode descobrir algo no mundo?
[Grande silêncio.] Descobertas científicas sim. Mas à face da terra já não há nada para descobrir.
Isso não é preocupante?
Não é preocupante. É uma tristeza!

