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Crítica

A eterna juventude sónica

23.04.2010 - 10:45 Por Mário Lopes

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Kim Gordon, elegantíssima e fervorosa encarnação rock'n'roll Kim Gordon, elegantíssima e fervorosa encarnação rock'n'roll (João Gaspar)
Sonic Youth
Lisboa, Coliseu dos Recreios
22 de Abril, 22h
Praticamente esgotado
4 estrelas

No Coliseu dos Recreios, a maior parte do alinhamento foi preenchido por “The Eternal”, o último álbum dos Sonic Youth. Mero pormenor. A banda nova-iorquina mantém uma intenção e uma urgência que quase dispensa os clássicos. Quase porque no encore chegaram “Cross the breeze” ou “Death Valley 69”. Encerramento perfeito para um concerto magnífico, o primeiro das duas datas portuguesas da digressão. Esta noite, os autores de “Goo” actuam no Coliseu do Porto.

Há um alvo pintado na coluna do amplificador e Lee Ranaldo avança sobre ele. Esfrega a guitarra, arrasta-lhe o braço enquanto os feedbacks se prolongam. Não só os que produz, também os da guitarra de Thurston Moore, no outro extremo do palco, e os da de Kim Gordon, quase ao centro, ela que se mantém elegantíssima e fervorosa encarnação rock'n'roll. Aquele zumbido incessante é agora tudo o que ouvimos, como se a música dos Sonic Youth se despojasse ali, nos últimos momentos do concerto, despido de todos os artifícios e concentrado numa qualquer ideia de essência: aquele zumbido, precisamente. Ainda ecoava nos tímpanos quando as luzes do Coliseu se acenderam e o público que praticamente lotou a sala lisboeta continuava a aplaudir.

Era o fim do segundo encore, o fim do concerto. Antes da muralha de feedback, tinha havido esse portento de turbulência intitulado “Death Valley 69”, a última canção de “Bad Moon Rising”, e antes dele Kim Gordon fora do sussurro-mistério ao grito-turbilhão num verso, “kiss me in the shadow of a doubt” (gravado originalmente em “Evol”). Com elas, o encerramento perfeito de um concerto que, porventura para desgosto de alguns, se concentrou a maior parte do tempo no último “The Eternal”. A escolha do alinhamento, porém, foi mero pormenor. Porque, primeiro, a meia idade desta banda tem-se demonstrado magnífica: é primorosa a forma como os Sonic Youth, em álbuns como “Rather ripped” ou o supracitado “The Eternal”, mantêm intenção e urgência na expressão rock que definiram há muito, agregadora de toda uma linhagem de linguagens marginais. E porque, mais importante, aquela ideia de som, aquela corrosão constante de guitarras silvando como theremins de estática, aquela ferocidade que Steve Shelley, o baterista, imprime à música, está agora presente em qualquer canção, de qualquer disco, tocada em qualquer concerto. Os Sonic Youth assomam como mestres e mesmo os improvisos parecem ter uma dinâmica plenamente dominada, mas continuam a procurar algo, continuam a acreditar na possibilidade transformadora daquela música.

Em entrevista ao Ípsilon, antecipando o concerto, Lee Ranaldo afirmava temer que o rock'n'roll esteja a caminhar para a cristalização: uma arte de standards, de glorificação do ontem sem amanhã à vista. Em palco os Sonic Youth são a negação, canção após canção, de que tal seja sequer uma possibilidade. Foi isso mesmo que tornou tão entusiasmante e inspirador este verdadeiro reencontro geracional, 17 anos depois do marco que foi a primeira actuação da banda em Portugal, no Campo Pequeno.

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Comentário + votado

Bom concerto

Já tive o privilégio de ver os SY algumas vezes, quer em recinto fechado (e.g. Aula ...

ruibbb

23.04.2010 12:47

X

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