A crítica a "Café Müller" e a "Masurca Fogo": A meio caminho entre o ser e o estar

30.06.2009 - 15:14
No ano da criação de "Café Müller" (1978), Pina Bausch dizia: "Tudo se tornou rotina e já ninguém sabe porque está a usar certos movimentos. Tudo o que sobra é uma estranha espécie de vaidade que se afasta cada vez mais das pessoas. E eu acho que deveríamos estar cada vez mais perto do outro." O arco criativo que une "Café Müller" a "Masurca Fogo" (1998) mostra-nos que na evolução do discurso da coreógrafa alemã o espaço cénico lhe serviu para explorar esse outro espaço real (onde as pessoas estão), no qual se inspira e ao qual quer regressar. Olhar estes dois exemplos, a anos de distância da sua criação, e marcados que estamos pelas memórias que herdámos ou supusemos, força-nos a olhar para o interior do objecto, buscando nele a filtragem do tempo, da dramaturgia, da expectativa e do legado.
Entre o ambiente claustrofóbico que Rolf Borzik criou para "Café Müller" um cinzento café vazio de cadeiras e mesas onde seis personagens se perdem e a massa vulcânica encravada em sólidas paredes brancas que Peter Pabst desenhou para Masurca Fogo, percebe-se que o que começou como uma narrativa circular que se encerrava no espaço cénico hiperrealista, se desenvolveu enquanto sucessão de micronarrativas que, independentes, abrem esse espaço agreste a uma luminosidade que não quer ser somente fi ccional.
A tradução cenográfica de uma dramaturgia é visível nestas duas peças, mas também em Nefés (2003), que completou o ciclo que ontem terminou no São Luiz e no Centro Cultural de Belém. Sem nunca perder a extraordinária capacidade de, nos limites da cena, traduzir e explorar um mundo que, sendo pessoal, depressa se transforma num espelho com o qual somos confrontados, Pina Bausch procura criar uma cumplicidade que nasça do diálogo entre os vários elementos encenados e se estenda aos espectadores. Hans-Thies Lehmann chama a este espaço "um co-intérprete autónomo que aparentemente lhes marca [aos intérpretes] o tempo ao comentar o seu desenvolvimento físico [e onde] os espectadores não observam mas experienciam, eles próprios, a vivência no interior daquele espaçotempo" (Post-dramatic theatre, 1999).
Se os corpos em "Café Müller", e o de Bausch em particular, mergulham numa catarse que insiste em marcar fundo as dores dessa passagem, os de "Masurca Fogo" vivem já acima dessa materialidade e metamorfoseiamse a bel-prazer em sensualidade, intenso paganismo e liberdade. Uma e outra, se opostos lunares, indicamnos um desejo de construção de um espaço social onde este "existe enquanto tentativa de representação de uma fantasia, de um sonho, de uma visão do dramaturgo ou de uma personagem limite entre jogo e não-jogo definido por cada representação e cena" (Patrice Pavis, A Crítica Dramática face à Encenação, 2006).
Se a estrutura de "Café Müller" é hipersimples (os corpos vagabundos hesitam nos encontros, as linhas que traçam são circulares, a claustrofobia adensa-se no contraste entre a rudeza dos materiais e a entrega a um movimento ascético), em "Masurca Fogo", criada a partir de Lisboa, encontramos traduções coreográficas do marialvismo, a violência doméstica, a precariedade das relações humanas, uma inabilidade em lidar com o passado colonial, a alienação, o deslumbre fátuo, o exibicionismo, a piada fácil, ou o "desenrascanço", essa característica que nos deforma. Se a primeira abre margem para um reconhecimento e cumplicidade no lamento, a segunda metaforiza, segmenta e caricatura estados de espírito e comportamentos que nada têm de superficiais. E, enquanto o espaço ficcionado de "Café Müller" permite uma maior liberdade interpretativa, o facto de "Masurca Fogo" se inspirar em Lisboa leva-nos a querer identifi car cada uma das sequências como pertença de um território que achamos conhecer.
Estaremos, de facto, perante um objecto que dialoga com a cidade, ou um pretexto para a continuação de uma estética? Diria que seremos para sempre prisioneiros daquilo que sabemos da cidade e fascinados por aquilo que a coreógrafa dela nos dá.

