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Arco encerra hoje

A crise como efeito psicológico na feira de arte contemporânea de Madrid

21.02.2010 - 11:44 Por Vanessa Rato

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Passados os primeiros dias da feira, quando o grande público invade o Parque Ferial Juan Carlos I, a regra é que as expectativas de vendas in loco desçam a quase zero Passados os primeiros dias da feira, quando o grande público invade o Parque Ferial Juan Carlos I, a regra é que as expectativas de vendas in loco desçam a quase zero (Pierre-Philippe Marcou/AFP)
A crise como uma realidade múltipla, com um rosto para cada grupo socioeconómico: a avaliar pelos primeiros resultados da 29.ª edição da feira de arte contemporânea de Madrid, que hoje encerra, há grupos que têm vivido os último ano e meio como pouco mais do que um efeito psicológico, uma nuvem passageira.

Menos coleccionadores de visita, dizem alguns dos galeristas que este ano participaram na Arco, mas resultados comerciais confortavelmente acima do desastre temido, um desastre contra o qual muitos nomes fortes decidiram precaver-se, retirando-se do evento ou participando apenas em projectos especiais, com stands de formatos - e custos - reduzidos, face a edições anteriores.

"Acho que viemos todos ver o que poderia acontecer e as conclusões são boas", diz-nos uma das assistente da Oriol. O mesmo na Haunch of Venison: "Estamos muito satisfeitos. Vendemos uma boa porção do stand", diz-nos Chatterton Dickson.

Bacon não se vendeu

Passados os primeiros dias da feira, exclusivamente dedicados a visitantes profissionais, no fim-de-semana, quando o grande público invade o Parque Ferial Juan Carlos I, a regra é que as expectativas de vendas in loco desçam a quase zero, ficando em aberto apenas reservas e contactos com museus e curadores para projectos futuros. Assim, começam os balanços.

No stand pensado para a Arco, a Haunch of Venison - presença polémica na feira desde que foi adquirida, há três anos, pelo grupo Christie"s, num cruzamento mal visto com o mercado leiloeiro - escolheu apresentar trabalhos entre os 100 mil e os 300 mil euros. Vendas: por exemplo, um trabalho do topo da sua pirâmide, o díptico The Innocents (2007) do conhecido artista norte-americano Bill Viola (n. 1951).

Ao contrário do que faz em Maastricht - 12 a 21 de Março -, na Arco, a Haunch of Venison não tem trabalhos da primeira metade ou meados do século XX. Já a Edward Nahem escolhe um leque temporal a começar numa pequena escultura em bronze assinada em 1937 pelo espanhol Julio González (1876-1942). É nesta galeria que está a peça mais cara deste ano da Arco - um pequeno auto-retrato de 1987 do pintor britânico Francis Bacon (1909-1992) a 1,6 milhões de euros. Não encontrou comprador. Mas a galeria fez, mesmo assim, vendas de meio milhão de euros.

"O ano passado foi pior", diz-nos o proprietário da galeria. "Apesar da escala da crise, algumas pessoas que compram arte não foram afectadas a não ser psicologicamente e, essas, há um ano estavam mais perturbadas, mais retraídas."

Sinais de retoma

A crise cansa e, depois do choque inicial, quem pode investir começa a querer libertar-se do ambiente de contenção. São as mesmas pessoas, diz-nos ainda Edward Nahem, que, no actual contexto, "sabem que não recebem nada por ter o seu dinheiro no banco ou apostá-lo na bolsa".

A realidade da Haunch of Venison e da Edward Nahem vai-se repetindo pelas galerias que tradicionalmente mais vendem. O caso, por exemplo, da Marlborough ou - ainda que a outro nível - da portuguesa Mário Sequeira. Nesta última, a assistente Maria Miguel confirma a surpresa mais ou menos geral. "Este ano, vieram menos 40 galerias à feira e isso representa menos coleccionadores, mas estamos todos espantados: a feira está animada."

As peças mais caras deste stand, este ano uma joint venture com a espanhola Javier López (no fim do ano abrem um espaço comum à saída de Madrid) - por exemplo, uma peça de parede do minimalista norte-americano Donald Judd (1928-1994) a 300 mil euros - não saíram, mas venderam-se trabalhos entre os 1200 e os 60 mil euros.

É uma faixa do mercado da arte susceptível de se ver animada por indicadores de retoma como o leilão do princípio do mês da Sotheby"s, quando L"Homme qui marche I, do escultor Alberto Giacometti (1901-1966), chegou aos 73,9 milhões de euros, tornando-se na mais cara obra de arte alguma vez vendida em leilão [e batendo por 170 mil euros a tela Garçon a La Pipe, de Pablo Picasso (1881-1973), vendida com o mercado em alta de 2004]. Acontecimentos que tocam menos, e menos imediatamente, os profissionais ligados ao capital artístico mais contemporâneo.

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