Surpresa e cautela marcam descoberta de que há partículas mais velozes do que a luz

23.09.2011 - 16:51 Por Ricardo Garcia
Desde Einstein, há um século, que se acredita que não há nada capaz de viajar mais rápido do que a luz. Por isso, o anúncio hoje de que foram encontradas partículas com velocidade superior está a ser recebido com surpresa e muita cautela.
Cientistas do Centro Europeu de Investigação Nuclear (conhecido pela sigla CERN) revelaram que uma equipa internacional de investigadores encontraram neutrinos – uma partícula sub-atómica – que de facto viajam cerca de seis quilómetros por segundo mais rápido do que a luz. A diferença é mínima – a velocidade da luz é de 299.792 quilómetros por segundo – mas, caso seja comprovada, revolucionará a física tal como hoje a conhecemos.
“É um resultado interessante, mas é pouco plausível”, afirma o físico Filipe Duarte Santos, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Segundo Duarte Santos, aquilo que já se conhece dos neutrinos – a partir de outras experiências e de ocorrências astronómicas – é mais robusto do que o que agora está a ser apresentado.
Os próprios cientistas envolvidos na experiência – realizada no âmbito do projecto OPERA, no qual investigadores de 30 instituições, de onze países, estudam os neutrinos – estão cautelosos. A experiência consistiu em observar feixes de neutrinos, depois de atravessarem 730 quilómetros entre o CERN, na Suíça, e o laboratório Gran Sasso, no centro da Itália.
Os neutrinos são partículas sem carga eléctrica e com massa quase insgnificante, que atravessam tudo o que encontram pela frente, mas sem interferir com nada. Podem ser identificados por detectores, como os que estão montados no laboratório Gran Sasso.
Da experiência, concluiu-se que os neutrinos vindos do CERN percorrem aquela distância a uma velocidade que era 20 partes por milhão mais elevada do que a da luz. Na prática, são seis quilómetros por segundo a mais.
“Este resultado é uma surpresa total”, admitiu Antonio Ereditato, da Universidade de Berna e porta-voz do projecto OPERA, citado num comunicado do CERN. “Depois de muitos meses de estudos e de verificações, não encontrámos nenhum efeito instrumental que possa explicar estes resultados”, acrescentou Ereditato.
Os cientistas do projecto OPERA sabem que os resultados, a serem confirmados, serão revolucionários. Por isso, estão a avançar com cautela, submetendo os dados da experiência à avaliação de outras equipas e esperando que ela seja replicada por outros laboratórios.
“Se estas medições forem confirmadas, poderão mudar a nossa compreensão da física, mas precisamos ter a certeza de que não há outras explicações, mais mundanas. Isto requer medições independentes”, disse por sua vez Sergio Bertolucci, director de Investigação do CERN, citado no mesmo comunicado.
O físico Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra, acredita que poderá ter havido algum erro. “É um resultado inesperado, é a primeira coisa que se pode dizer”, afirmou Fiolhais ao PÚBLICO. “O mais plausível é haver um erro associado”, completa, porém.
Um potencial ponto fraco pode estar na análise estatística. A margem de segurança estatística dos resultados é essencial para os qualificar como uma “descoberta” ou como simplesmente algo interessante a investigar melhor. Uma primeira sugestão de que os neutrinos poderiam ser mais velozes do que a luz já tinha sido obtida por outro centro de investigação, no ano passado. Mas a diferença estava dentro da margem de erro.
Antonio Ereditato afirma que os resultados agora do projecto OPERA para os neutrinos têm “baixa incerteza sistemática e elevada precisão estatística”, mas que, ainda assim, é preciso compará-los com o de outras experiências semelhantes.
Se forem corroborados, então a Teoria da Relatividade, de Einstein – que implica que nada pode viajar mais rápido do que a luz – estará em causa. Isto representaria, como diz Carlos Fiolhais, “derrubar uma coluna” essencial da física. “A Teoria da Relatividade é um dos pilares da física moderna”, reforça Filipe Duarte Santos.

