Pôr uma colher do líquido “mágico” na boca e engolir. Este é um ritual diário para o cientista russo Mikhail Shchepinov que, todos os dias, sorve aquela que considera poder a ser a solução para prolongar a vida humana, uma colher de água pesada – D2O, em que o “D” da fórmula química representa o deutério, um isótopo do hidrogénio de massa atómica 2, em vez de 1. O sabor é ligeiramente adocicado e se um cubo deste líquido fosse colocado num copo, afundar-se-ia em água normal.
Já lá vão 18 meses desde que o bioquímico russo anunciou pela primeira vez que tinha descoberto o elixir da juventude, uma maneira de beber (ou comer) para conseguir ter uma vida mais longa. Segundo noticia a revista “New Scientist”, Shchepinov começou a interessar-se por esta área há dois anos através da leitura de artigos científicos sobre as causas do envelhecimento.
A teoria mais bem aceite pela comunidade científica é a dos radicais livres, que defende que o corpo humano vai envelhecendo devido a danos irreversíveis provocados às biomoléculas. Os responsáveis por esta destruição são os radicais de oxigénio livres, compostos químicos agressivos que são um produto inevitável resultante do metabolismo das células.
Os “estragos” vão sendo acumulados ao longo da vida até que chega o ponto em que os processos bioquímicos básicos do corpo deixam de funcionar. Estes processos estão associados a doenças ligadas à velhice, incluindo Parkinson, Alzheimer, cancro, falhas renais crónicas e diabetes.
O corpo humano produz antioxidantes que eliminam os radicais livres antes que estes possam causar danos. À medida que a idade avança, estes sistemas defensivos acabam também por ser destruídos e o corpo entra num declínio inevitável.
”Comer” juventude
Até agora a maioria dos medicamentos para lutar contra o envelhecimento eram compostos por antioxidantes, como a vitamina C ou beta-caroteno, que serviam para ajudar estes sistemas de defesa, apesar de não haver evidências que o resultado fosse positivo.
O bioquímico russo decidiu seguir um caminho diferente. Aproveitando a investigação que já fazia na área dos efeitos dos isótopos, decidiu conjugá-los com os conhecimentos que ia adquirindo sobre as causas do envelhecimento.
O conceito por detrás desta área é o de que a presença de isótopos pesados numa molécula pode diminuir as reacções químicas com outros compostos. Isto acontece porque são formadas ligações mais fortes na molécula. No caso do isótopo de hidrogénio escolhido por Shchepinov, o deutério, as ligações estabelecidas são 80 vezes mais fortes do que aquelas que são estabelecidas com hidrogénio normal.
A ideia é usar este efeito para tornar as biomoléculas mais resistentes aos ataques dos radicais livres. Para isso, o bioquímico defende que apenas seria necessário colocar deutério ou carbono-13 (outro isótopo pesado) nas ligações mais vulneráveis.
O deutério e o carbono-13 parecem ser não tóxicos, portanto a sua ingestão deixa de ser um problema.
Há 18 meses, quando Shchepinov apresentou esta ideia fez questão de frisar as inúmeras experiências científicas que já provaram que as proteínas, os ácidos gordos e o ADN podem ser ajudados a resistir a danos provocados pelos ataques dos radicais livres recorrendo ao efeito dos isótopos.
Carne, ovos e leite enriquecidos
No entanto, algumas experiências indicam que a água pesada não é completamente segura. Por isso, a ideia de Shchepinov é a de incorporar isótopos pesados na chamada “iFood”. Este método consistiria em adicionar à nossa dieta aminoácidos (constituintes das proteínas) essenciais - dos 20 aminoácidos utilizados pelos humanos, dez não podem ser produzidos e têm que ser ingeridos na forma de alimentos -, cujas ligações já tivessem sido previamente “fortalecidas”.
Segundo o bioquímico russo esta estratégia é completamente segura, porque os átomos de deutério ligados ao carbono nos aminoácidos não são “trocáveis” e portanto não se ligariam à água do corpo. Uma das propostas seria a produção de carne, ovos ou leite enriquecido com deutério ou carbono-13, que seriam dados aos animais como alimento. Por enquanto, a “iFood” continua a ser apenas uma ideia. Até porque, como explica Shchepinov, citado pela “New Scientist”, “os isótopos são caros”.


