Leitura de palavras relacionadas com aromas activa regiões olfactivas do cérebro

16.06.2006 - 17:28 Por Ana Gerschenfeld
Alho, incenso, urina, limão, suor, alfazema… Ao que parece, basta ler palavras deste tipo para que fazer com que partes do córtex cerebral relacionadas com o olfacto – e não apenas com a linguagem – entrem em actividade. Para a equipa de cientistas espanhóis e britânicos que em breve irão publicar estes resultados na revista “Neuroimage”, isto quer dizer que, quando adquirimos um conhecimento ou vivemos uma experiência para os quais existe uma palavra, o nosso cérebro liga os dois tipos de informação – a linguística e a sensorial – para construir a semântica. E confirmam assim, mais uma vez, a ideia que o cérebro humano está organizado de maneira extremamente integrada e não compartimentada.
Julio González e os seus colegas da Universidad Jaume I em Castellón de la Plana (Valência), em colaboração com investigadores do Medical Research Council britânico, pediram a 23 voluntários para lerem as palavras acima e mais 54 palavras relacionadas com bons e maus cheiros. A lista também continha 60 palavras sem qualquer relação com os aromas.
Quando os cientistas observaram a actividade cerebral das pessoas através de ressonância magnética, puderam constatar que as palavras “com cheiro” resultavam numa activação de áreas cerebrais que processam os cheiros, nomeadamente o córtex olfactivo primário e o córtex orbito-frontal. Pelo contrário, quando os voluntários liam palavras sem conotação aromática, estas duas zonas corticais permaneciam inactivas.
“Visto que as palavras são habitualmente utilizadas juntamente com os objectos e acções aos quais fazem referência, os neurónios corticais que processam a informação associada às palavras e aos objectos são activados em simultâneo e portanto ficam ligados”, escrevem os cientistas.
Segundo este princípio, postulado em meados do século XX por Donald Hebb, um dos “pais” da neuro-psicologia, quando dois sistemas neuronais se activam repetidamente ao mesmo tempo, o facto de um desses sistemas se activar acaba por facilitar a activação do outro. E é por isso que, quando detectamos por exemplo o cheiro a alfazema, vem-nos à mente o nome da planta que tem esse cheiro – e reciprocamente, quando lemos a palavra alfazema, sabemos a que cheiro ela faz referência.
Estudos anteriores já tinham demonstrado um fenómeno semelhante em relação a palavras associadas a partes do corpo. Assim por exemplo, a leitura de palavras relacionadas com movimentos da perna – tais como “pontapé” – activa não só as áreas cerebrais da linguagem, mas também as áreas motoras implicadas nos movimentos da perna e do pé.
O conjunto destes resultados, dizem os cientistas, sugere que "as representações semânticas estão distribuídas de forma sistemática por todo o córtex cerebral" e não apenas confinadas às áreas específicas da linguagem.

