Olhar para o planeta Saturno, mesmo através de um modesto telescópio, parece um acto banal, mas é na realidade uma experiência inesquecível. Essa bolinha branca e gélida, no meio do nada, com os seus anéis perfeitamente visíveis que reflectem na noite os raios de um Sol ausente, é tão familiar que quase parece que vamos conseguir tocar nela. Mas ao mesmo tempo, é uma visão tão estranha, a solidão do espaço é tão absoluta e a distância tão intransponível, que olhar para ele torna-se estonteante. Imagine agora o que sentiria se visse com os seus próprios olhos, pela primeira vez, planetas literalmente fora deste mundo (ou melhor, fora deste sistema solar).
Para alguns astrónomos, este é um cenário que já não precisam de imaginar. “Ia tendo um enfarte”, diz Paul Kalas, da Universidade da Califórnia, em comunicado. “É uma experiência profunda e avassaladora poisar os olhos num planeta nunca antes visto.” Com a sua equipa, Kalas fotografou, com a luz visível, um planeta que gira em torno da estrela Fomalhaut (que em árabe significa “boca da baleia”), situada a 25 anos-luz da Terra, na constelação de Piscis Austrinus (Peixe Austral). Foi no fim de Maio quando, depois de anos de trabalho, os cientistas confirmaram que não se tratava de uma mera ilusão de óptica – e que o planeta Formalhaut b gira efectivamente em torno da estrela-mãe – que Kalas ia tendo um ataque, tal foi a emoção que sentiu ao ver algo de quase inimaginável até aí. A estrela que andava a observar há 15 anos, desde os seus dias de estudante universitário, tinha acabado de lhe dar a surpresa da sua vida.
A equipa de Kalas, que hoje revela a novidade num artigo na versão online da revista "Science", utilizou um dos mais potentes telescópios existentes: o telescópio espacial Hubble da NASA, e em particular um dos seus instrumentos, a Advanced Camera for Surveys, para estudar o disco de poeiras com 34.500 milhões de quilómetros de extensão que envolve a estrela. Desde 2005 que suspeitavam, dadas as características particulares dessa gigantesca estrutura, que ela escondesse um planeta. “A gravidade do [planeta] Fomalhaut b é a principal razão pela qual o disco de poeiras à volta de Fomalhaut tem a forma de um anel e está descentrado em relação à estrela”, salienta Kalas. Agora, temos a prova directa.”
Dos cerca de 300 exo-planetas descobertos até hoje, nenhum tinha sido assim apanhado pela objectiva. Os métodos habitualmente utilizados para detectar planetas em torno de outros sóis são indirectos, precisamente porque, como é fácil de perceber, os planetas são dificilmente visíveis. Em vez disso, os cientistas procuram por exemplo variações periódicas do brilho da estrela, que pode significar que algo está a passar entre ela e nós, fazendo “sombra” – talvez um planeta. Este método, dito dos trânsitos, é uma das maneiras de descobrir planetas extra-solares. Outro consiste em detectar pequenas oscilações na posição de uma estrela, devido à acção da gravidade de um possível planeta.
Só que o planeta Fomalhaut b teria sido impossível de detectar por estes métodos, porque é demasiado pequeno e está demasiado longe da sua estrela para lhe provocar tremores (a 17 mil milhões de quilómetros, dez vezes a distância de Saturno ao Sol). Para mais, demora 872 anos a completar uma órbita em torno de Fomalhaut e será preciso esperar muito tempo até ele passar entre nós e a estrela e perturbar a sua luminosidade. Foi por isso que os cientistas decidiram tentar ver o hipotético planeta à luz infra-vermelha. Qual não foi a sua surpresa quando Fomalhaut b surgiu nas imagens, não no inframervelho, onde se revelou invisível, mas em luz totalmente banal – no espectro óptico que os nossos olhos vêem naturalmente. “A descoberta em luz visível foi uma total surpresa”, diz ainda Kalas. Por extraordinário que pareça, o planeta encontra-se suficientemente longe da estrela e é suficientemente brilhante para surgir nas duas fotografias que os cientistas obtiveram, em 2004 e 2006.


