Uma vacina e um estimulante imunitário que podem evitar a morte das crianças. Dois projectos vindos de laboratórios portugueses conseguiram cumprir os rigorosos critérios da Fundação Bill & Melinda Gates. E ganharam bolsas. Em ano e meio os primeiros resultados estarão aí. Se resultar, a fundação pode injectar fundos a sério, no valor de um milhão de dólares.
A protecção imunitária atravessa as ideias ousadas de Miguel Prudêncio e Miguel Soares que conquistaram os júris da Fundação Bill & Melinda Gates. Os projectos receberam, para já, bolsas de cem mil dólares para o desenvolvimento de uma vacina e para a estimulação da imunidade em crianças - a faixa etária em que mais se morre desta doença.
De onde nasceram estas ideias?
Há seis anos Miguel Prudêncio, 39 anos,abandonou a bioquímica molecular e mergulhou no estudo do parasita que causa a malária - o Plasmodium. Para sermos infectados com o Plasmodium falciparum (a mais perigosa das espécies que causam malária no homem) é necessário sermos picados pelo mosquito Anopheles. Prudêncio não só foi picado como, sem querer, já se picou com glóbulos vermelhos que carregam o parasita. O cientista estava a trabalhar com o Plasmodium berghei, a espécie de parasita que ataca os ratinhos mas que é muito promíscuo in vitro, ou seja, infecta células de várias espécies.
"A primeira coisa que te perguntas é se isto não te vai fazer mal", disse ao P2 Prudêncio numa conversa no Instituto de Medicina Molecular (IMM), em Lisboa. A investigadora principal do grupo que está sediado no IMM, Maria Mota, disse-lhe que não. Ao longo do tempo as pessoas foram sendo infectadas pelo P. berghei, mas esta espécie não tem a maquinaria certa para concluir o ciclo nos humanos, e nunca ficaram doentes.
Sabe-se que in vitro o parasita consegue penetrar células do fígado humanas - as primeiras que são atacadas quando o mosquito liberta os parasitas na nossa corrente sanguínea. Mas ao contrário do P. falciparum, o P. berghei não se multiplica. Provavelmente não sairá para o sangue para infectar as células vermelhas - a fase que causa os sintomas agudos da malária.
Miguel Prudêncio ficou descansado. Mas a questão permaneceu adormecida até ao concurso da Fundação Bill & Melinda Gates. Prudêncio lançou a ideia a Maria Mota de explorar este fenómeno de o P. berghei infectar células do fígado humanas para testar se existe alguma reacção imunológica interessante. A cientista lembrou-se de um transgénico do P. berghei que tem um gene do parasita que ataca os humanos.
Este gene codifica uma proteína que existe à superfície do parasita, que aparece só durante a fase do fígado e tem o potencial de acordar o nosso sistema imunológico. "O que nos interessa é saber se durante a fase do fígado [o P. berghei] desperta uma reacção imunológica que vai conferir imunidade para uma infecção subsequente", disse o cientista.
Se o P. berghei não fosse transgénico a reacção imunológica serviria apenas contra um parasita que por si não causa a doença. Mas este transgénico está "mascarado" com uma proteína do P. falciparum. "Esperamos que o P. berghei desencadeie uma reacção imunitária que vai proteger de uma infecção posterior com o P. falciparum." A isto chama-se uma vacina.
No ano passado, o projecto de Maria Mota e Miguel Prudêncio não conseguiu atravessar o filtro finíssimo dos júris da Fundação Bill & Melinda Gates. "Quando não se consegue nem dá para ficar deprimido, porque não se deve é contar com isso", disse ao P2 Miguel Soares, 42 anos,que também já tinha tentado estas bolsas uma vez sem sucesso.
Menos de cinco por cento dos projectos são aprovados, as probabilidades são pequenas. Este ano, para a quinta edição da Grand Challenges Explorations, a fundação pediu ideias que contribuíssem para erradicar a malária. Candidataram-se 2400 projectos, só 65 é que receberam as bolsas de cem mil dólares (72 mil euros). O compromisso da fundação é dar dinheiro para as ideias mais arrojadas e com uma aplicação directa, que provavelmente não seriam financiadas pelas vias normais.


