Comecemos as despedidas da grande imagem de marca da NASA nos últimos 30 anos: o vaivém espacial a abandonar a Terra envolto numa nuvem branca, os astronautas a bordo e um porão cheio de carga. A frota de vaivéns dos Estados Unidos vai mesmo ser reformada entre o fim deste ano e o início do próximo. Até aqui nada de novo, mas da Casa Branca veio uma surpresa: Barack Obama cancelou todos os planos dos veículos destinados a substituir o vaivém, o que significa o fim do sonho de viagens humanas à Lua e a Marte tal como tinha sido lançado pelo seu antecessor, George W. Bush. E agora?
Se as intenções de Obama manifestadas na proposta de orçamento para 2011 vierem a ser aprovadas pelo Congresso dos Estados Unidos, a NASA vai encerrar o programa Constelação, lançado no rescaldo da explosão do vaivém Columbia, em 2003.
No ano seguinte à tragédia, Bush anunciou a reforma antecipada da restante frota de três vaivéns (em 2010, em vez de 2020) e que, com a libertação de fundos que a retirada destes veículos permitiria, a NASA iria desenvolver um plano de regresso de astronautas à Lua até 2020. Uma vez alcançado esse objectivo, Marte seria o próximo passo de uma viagem tripulada. Tudo antecedido por uma guarda avançada de sondas e robôs.
Carregado de simbolismo, este retorno à Lua marcaria o renascer do programa Apolo (que entre 1969 e 1972 pôs 12 homens no solo lunar, em seis viagens), que fez com que os Estados Unidos saíssem vencedores na corrida ao espaço, no auge da Guerra Fria.
Mas a antecipação da reforma dos vaivéns pôs desde logo um problema: como é que os astronautas norte-americanos viajariam para a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa)? Teriam de ficar dependentes, numa primeira fase, da boleia da Rússia, um dos países envolvidos na estação espacial: utilizariam as cápsulas russas Soiuz, montadas no topo de foguetões igualmente russos. Em 2012, apenas dois anos após a retirada dos vaivéns, entrariam em operação alguns veículos de transporte de tripulantes resultantes já do programa Constelação: o foguetão Ares I e a cápsula Orion, onde seguiriam os astronautas.
O Ares I e a Orion deveriam funcionar até ao fim da participação dos Estados Unidos na ISS, previsto para 2016. A partir dessa data, avançar-se-ia em força com o desenvolvimento de outros veículos, para regressar à Lua até 2020: um foguetão maior chamado Ares V, que transportaria um módulo de alunagem, o Altair.
No Constelação, nos últimos cinco anos, a NASA gastou nove mil milhões de dólares (6,5 mil milhões de euros). Apesar deste dinheiro, os planos de regresso à Lua começaram a defrontar-se com dificuldades orçamentais e técnicas. Ultrapassá-las exigia mais investimentos.
Com as derrapagens, afinal o Ares I e a Orion só estariam prontos por volta de 2017 - ou seja, já depois de a estação espacial estar desactivada. Pelo meio, os Estados Unidos ficariam sete anos sem um veículo que levasse humanos ao espaço e a depender da Rússia.
E se a vida da ISS fosse prolongada até 2020, como diversas vozes defendiam, o Ares I ainda se atrasaria mais, uma vez que a manutenção da estação por mais tempo exigiria a orçamentação de despesas adicionais em detrimento do novo foguetão. Neste cenário, a NASA só teria o Ares I e a Orion concluídos em 2021.
Era esta a situação herdada por Obama, quando há um ano chegou à Casa Branca. Antes de uma decisão, pediu a uma comissão independente (liderada por Norman Augustine, antigo presidente da empresa aeroespacial Lockheed Martin) a revisão dos planos futuros das missõestripuladas. O resultado criticava as opções da era de George W. Bush. Entre outras coisas, ou Obama atribuía três mil milhões de dólares adicionais à NASA por ano, ou a exploração humana da Lua e para lá dela seria difícil.
Ares foram ao ar
Na proposta de orçamento, apresentada no passado dia 1, é como se Obama tivesse dito: "Houston, temos um problema" (expressão inicialmente usada quando a tripulação da missão Apolo 13 comunicou um problema técnico grave ao centro de controlo em terra, em Houston, no Texas).


