Fumadores com lesões no cérebro esqueceram-se da vontade de fumar 
26.01.2007 - 09:13 Por Teresa Firmino
E se de repente perdesse a vontade de fumar e largasse os cigarros de um dia para o outro, sem dificuldade nem recaídas? Foi o que aconteceu a fumadores que sofreram lesões numa região do cérebro, a ínsula.
A ideia de relacionar o desejo de fumar com danos cerebrais surgiu a partir do caso de um homem de 38 anos que fumava desde os 14. Identificado como doente N., fumava mais de 40 cigarros por dia. Mas deixou de fumar após um acidente vascular cerebral lhe ter causado lesões na ínsula do hemisfério esquerdo do cérebro. Nunca fez tentativas para não fumar, nem pretendia fazê-las.
"Quando lhe perguntaram por que deixou de fumar, disse apenas: "Esqueci-me de que era fumador"", relatam hoje na revista Science os cientistas que estudaram este e outros casos. Pediram-lhe para elaborar mais a resposta: disse que não se esqueceu que era fumador, mas "o corpo esqueceu-se da necessidade de fumar".
"A sua experiência sugeria que a ínsula desempenharia um papel na sensação de que fumar é uma necessidade corporal", dizem os cientistas.
Localizada bem no interior do cérebro, a ínsula recebe informação de várias partes do corpo, traduzindo-as em sensações como a fome, a dor ou a necessidade de se drogar, explica-se num comunicado da Associação Americana para o Avanço da Ciência (editora da Science). Está assim implicada naquilo que se diz serem as necessidades conscientes.
"Comparada com outras regiões do cérebro, a ínsula não atraiu até agora muita investigação sobre toxicodependência. Mas estudos de imagiologia mostram que essa região é activada por estímulos associados à droga, como ver pessoas a drogarem-se", acrescenta o comunicado.
Equipa contou com Hanna Damásio
Hanna Damásio e Antoine Bechara, da Universidade da Califórnia do Sul, em Los Angeles, coordenaram a equipa que procurou uma relação entre a ínsula e o fumar. Hanna Damásio, que é portuguesa, distinguiu-se mundialmente pelo estudo de lesões do cérebro com técnicas de imagiologia.
A equipa usou um grande registo de doentes da Universidade do Iowa (onde Hanna Damásio trabalhou) que tem permitido o estudo dos efeitos de lesões cerebrais. Para confirmar a hipótese, estudaram-se 69 doentes com lesões cerebrais e que, antes dos acidentes vasculares, eram fumadores. Todos fumavam mais de cinco cigarros por dia, há mais de dois anos e, na altura do estudo, não o faziam há mais de um ano.
Em 19 doentes, os danos atingiam a ínsula: 13 puseram os cigarros de parte (12 muito depressa e com facilidade). Doentes com outro tipo de lesão também pararam de fumar. E a razão por que seis dos doentes com lesões na ínsula continuaram a fumar é um mistério.
Mas foi naqueles que tinham a ínsula afectada que se verificou ser mais provável abandonar um hábito nada saudável. "Os resultados indicam que os fumadores com danos na ínsula têm maior probabilidade de deixar de fumar facilmente e de se manterem em abstinência. Além disso, é muito provável que não sintam uma necessidade consciente de fumar depois de terem parado", escreve a equipa.
"Este é o primeiro estudo a usar lesões cerebrais para estudar a dependência de drogas nos humanos", frisa o primeiro autor do artigo, Nasir Naqvi, da Universidade do Iowa, segundo um comunicado da Universidade da Califórnia do Sul.
Os danos naquela área cerebral actuarão mais na necessidade de fumar do que na redução do prazer obtido por fumar. No entanto, o estudo não é conclusivo neste aspecto.
Está também por saber se outros comportamentos de dependência de drogas, como o abuso do álcool, ficam comprometidos. Tal hipótese não foi estudada, porque no registo da Universidade de Iowa não são admitidos toxicodependentes. Ao que parece, a vontade de comer ou beber não ficaram afectadas pelos danos na ínsula. A explicação, para os cientistas, é que são necessidades tão vitais que existem no cérebro várias regiões a elas ligadas.
Não é porque a dependência da nicotina está associada a uma ínsula saudável que a solução passa agora por causar danos no cérebro. No entanto, identificar uma área cerebral que é um calcanhar de Aquiles para a dependência do tabaco é um passo para que se desenvolvam terapias.
Poderão actuar em receptores, moléculas na superfície das células, naquela área do cérebro, por exemplo. Ou talvez possa estimular-se o cérebro com correntes eléctricas fracas, para interferir com a actividade da ínsula. Por ora, é uma mera possibilidade teórica, refere um dos comunicados, porque esta técnica ainda não atinge zonas tão profundas como a ínsula. Além de que é preciso ter a certeza de que não se perturbam funções vitais, como a vontade de comer.

