E os prémios da má ciência de 2011 vão para...

29.12.2011 - 12:04 Por Clara Barata, Nicolau Ferreira
Uns são fraudes, outros são estudos que não deviam ter acontecido, pelo menos daquela forma. Quando a ciência não dá boa imagem de si.
A fraude do "senhor dos dados" holandês
Os temas de Diederik Stapel pareciam escolhidos a dedo para chamarem a atenção: a influência do poder no pensamento moral, como os ambientes desordenados promovem a discriminação... Mas os dez anos de investigação em Psicologia Social do holandês, traduzidos em mais de 150 artigos em revistas científicas, desmoronaram-se em Setembro, quando foram divulgados os primeiros resultados de uma investigação promovida pela Universidade de Tilburg, onde trabalhava. Stapel, afinal, não fazia inquéritos, nem experiências para observar situações sociais. Inventava pura e simplesmente os dados e dava-os aos seus estudantes ou colaboradores, que não sabiam que trabalhavam com falsidades.
"As pessoas estão chocadas", disse ao site Science Insider Gerben van Kleef, psicólogo social da Universidade de Amesterdão. O relatório ainda provisório das universidades holandesas onde Stapel trabalhou chamou-lhe "Senhor dos Dados" (Lord of the Data), porque não mostrava o material original a ninguém. Isso ter-lhe-á permitido ter uma carreira fraudulenta, publicando em revistas prestigiadas, como a Science.
Esta fraude de proporções épicas pôde acontecer porque é prática corrente na investigação em Psicologia não divulgar os dados originais, com a desculpa de defender a privacidade dos participantes. Mas "a cultura de segredo da Psicologia produz ciência de baixa qualidade", escreveu na Nature o psicólogo Jelte Wicherts, da Universidade de Amesterdão. "Quando se voltam a analisar artigos publicados, encontram-se frequentemente erros, e quanto mais relutantes se mostram os autores em divulgar os seus dados, mais provável é que o seu trabalho tenha erros."
Arsénio, bactérias e a ciência em águas de bacalhau
A descoberta divulgada no final de 2010 foi uma declaração e tanto. Havia na Terra bactérias tão diferentes que passava a ser possível procurar vida em locais no Universo que até então julgaríamos mortos. Felisa Wolfe-Simon, do Instituto de Astrobiologia da NASA, tinha encontrado uma espécie que se alimentava de arsénio. O estudo foi publicado na Science.
Até então o statu quo era que as proteínas, gorduras, o ADN, que compõem as células eram constituídas por carbono, oxigénio, hidrogénio, azoto, enxofre e fósforo. O que as bactérias GFAJ-1 do lago Mono, na Califórnia, rico em arsénio, faziam era substituírem o fósforo pelo arsénio quando o segundo existia em grandes quantidades. Este elemento venenoso, está abaixo do fósforo na Tabela Periódica e tem propriedades semelhantes.
A investigadora fez a descoberta submetendo as bactérias a concentrações altas de arsénio. Verificou a sua multiplicação e incorporação no ADN. Mas o trabalho foi logo criticado: o meio tinha fósforo suficiente para as GFAJ-1 sobreviverem, o ADN não foi limpo correctamente, devia ser analisado através de espectrometria de massa, etc.
A investigadora voltou para o laboratório e pediu aos seus pares que replicassem as experiências. Em Maio a Science publicou oito críticas ao artigo e um novo estudo de Wolfe-Simon e colegas que defendia as assunções originais. O artigo não foi retirado, embora exista uma desconfiança total.
A 25 de Junho, Carl Zimmer queixava-se no New York Times de que faltava vontade aos cientistas de replicarem experiências das quais esperavam resultados negativos. Dava explicações: isso tirava-lhes tempo para trabalhar nas suas experiências e tinham dificuldade em publicar os resultados em revistas de topo. Passado um ano, as bactérias que comem arsénio continuam em águas de bacalhau.
O vírus que afinal não estava por trás da fadiga crónica

