Não gostava do programa espacial - lembrava-se da derrota frente a Kennedy -, mas um acidente de calendário tornou-o o herdeiro do esforço dos democratas para recuperar a supremacia tecnológica dos EUA e da visão arrojada de J.F.K. É dele a assinatura na placa de aço do Eagle que está no Mar da Tranquilidade.
Dos três presidentes que já ocuparam a Casa Branca desde o início do projecto Apolo, o Presidente Nixon foi quem teve menos responsabilidades neste imenso programa. Foi o Presidente Kennedy quem deu início a este esforço e conseguiu obter o apoio do Congresso e do público para o objectivo de realizar uma viagem tripulada à Lua antes do fim da década.
Primeiro como vice-presidente e depois como Presidente, Lyndon B. Johnson foi o maior apoiante do programa a nível político e o seu mais incansável defensor. No entanto, devido a um acidente do calendário, é o Presidente Nixon que ocupa o lugar de dirigente máximo da nação, agora que se aproxima o momento em que se vai concretizar o sonho para o qual os seus dois predecessores trabalharam tão afincadamente com o apoio do Congresso.”
O tom de ressentimento do editorial do jornal New York Times de dia 19 de Julho de 1969, faz hoje 40 anos, é indisfarçável. A Lua era uma ideia de Kennedy, uma vitória política de Kennedy e de Johnson, um mérito dos democratas, e agora vinha este homem colher indevidamente os louros do trabalho dos outros. O “acidente de calendário” de que fala o Times tinham sido as eleições presidenciais dos Estados Unidos da América de 1968, onde Nixon tinha batido o democrata Hubert Humphrey e o candidato independente George Wallace.
Nixon estava na Casa Branca desde 20 de Janeiro de 1969 e era natural que tentasse cavalgar aquilo que era, na altura, o mais ambicioso programa nacional desde o lançamento do projecto Manhattan. Não que Nixon gostasse do programa espacial.
O programa Apolo representava muito daquilo que Nixon detestava: a sua derrota (tangencial) frente a Kennedy em 1960 tinha sido atribuída pelos gurus da época à sua má prestação televisiva, ao seu ar envelhecido frente a um John Kennedy pujante de juventude e arrojo, ao seu papel como vice-presidente de Eisenhower e ao facto de essa Administração ser apresentada como aquela que permitiu que a tecnologia militar soviética ultrapassasse os EUA — o famoso “missile gap” que se viria a saber anos mais tarde que afinal não existia. O programa Apolo era a juventude e o atrevimento de Kennedy e tinha sido lançado para recuperar, nesta área de interesse militar evidente, a supremacia tecnológica que, supostamente, ele, Nixon, e Eisenhower tinham feito com que a América perdesse.
Ultrapassar os soviéticos
A promessa de Kennedy tinha sido feita numa comunicação apresentada às duas câmaras do Congresso reunidas em sessão conjunta em 25 de Maio de 1961 e era intitulada “Mensagem especial ao Congresso sobre necessidades nacionais urgentes”. O espaço era apenas uma delas (o ponto 9 da comunicação), mas foi a que marcou o discurso. Aí o jovem Presidente defendeu que o país se comprometesse a alcançar o objectivo, “antes do fi m da década”, de “pôr um homem na Lua e trazê-lo de volta à Terra são e salvo”.
O projecto era mais que um projecto científico e tecnológico: era uma resposta à vitória soviética de Iuri Gagarin, que apenas um mês e meio antes se tinha tornado o primeiro homem a orbitar a Terra; deveria limpar a vergonha da fracassada invasão da Baía dos Porcos (Cuba), um mês antes; e apagaria até a mancha da vitória do Sputnik, o primeiro satélite artificial lançado em 1957 pela URSS, “capaz de vigiar os americanos a partir do espaço”, que os Estados Unidos nunca tinham conseguido engolir. E marcaria certamente a recuperação militar da América — que a propaganda soviética tinha conseguido convencer da sua ultrapassagem.
Para a Casa Branca — fosse qual fosse o seu ocupante —, o programa Apolo só acessoriamente é que teve a Lua como objectivo. Quando Kennedy diz no seu discurso de 1961 “I believe we should go to the moon”, os seus objectivos continuam a ser o público americano e a União Soviética.


