Uma equipa internacional de cientistas identificou uma mutação genética que afecta o relógio interno do corpo e que pode explicar a razão pela qual algumas pessoas só conseguem adormecer de madrugada.
A descoberta da mutação, baptizada de After-Hours (Afh), pode ter implicações importantes para a saúde nas sociedades modernas, onde se trabalha cada vez mais sem respeito pelos ciclos horários biológicos.
Uma das autoras do estudo — publicado na revista científica "Science Express" — é a portuguesa Sofia Godinho, investigadora no Conselho de Investigação Médica da Unidade de Genética de Mamíferos de Harwell, no Reino Unido. De acordo com a cientista, "os ritmos circadianos estão envolvidos na regulação de muitos processos para além dos padrões de sono, a que estão mais vulgarmente associados".
A maioria das plantas e animais terrestres move-se em ciclos de 24 horas, devido a um relógio interno que segue um padrão circadiano e que controla o processo fisiológico dos organismos. Nos mamíferos, esse relógio biológico está situado no hipotálamo, que regula o corpo através de uma série de sinais hormonais e neuronais em resposta a informações vindas da retina.
A equipa de investigadores tentou compreender o funcionamento do relógio interno e saber quais os genes envolvidos no controlo molecular desse processo essencial para a saúde humana.
O estudo baseou-se na análise de ratinhos com mutações genéticas e na busca de alterações nos seus ritmos diários. Os cientistas identificaram ratinhos com ciclos circadianos muito longos, com 27 horas, quando a média na espécie é de 23,6 horas. Foi assim que descobriram a mutação Afh no gene Fbxl3. O passo seguinte será encontrar o gene correspondente nos humanos.
"Uma vez identificado o gene anormal, responsável por determinada alteração nos ritmos de actividade diária, podemos estudar o homólogo humano seleccionando tipos extremos na população humana à procura de defeitos no mesmo gene", afirmou Sofia Godinho.
No futuro, adiantou Sofia Godinho, trabalhos como este poderão revelar outros genes responsáveis por um nível tão especializado de padrões de regulação, o que poderá ter implicações no diagnóstico e tratamento de muitas doenças associadas à desregulação dos ritmos circadianos.


