Células estaminais: peritos portugueses entusiasmados com "revolução em medicina"

24.08.2006 - 12:25 Por PUBLICO.PT
O anúncio da descoberta de uma técnica que permite cultivar células estaminais humanas sem destruir os embriões, feito ontem pela empresa norte-americana Advanced Cell Technology, constitui "uma revolução em medicina", considera o geneticista e investigador português Mário Sousa. O professor de Bioética Rui Nunes afirma também que "as reservas [éticas] caem totalmente por terra".
Em declarações à rádio TSF, Mário Sousa afirma que esta nova técnica "é uma novidade extraordinária".
"Até hoje sempre conseguimos remover células dos embriões para diagnóstico, mas em termos de experiências em animais o máximo que conseguíamos era duplicar um embrião a partir de quatro dessas células. De uma, conseguir proliferá-las a ponto de dar origem a milhões de células estaminais, é uma revolução médica", enfatiza o investigador do Instituto de Ciências Médicas Abel Salazar, no Porto
Reservas éticas "caem totalmente"
O professor de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Rui Nunes, que também integra o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, é taxativo quanto ao fim das reservas do foro ético que condicionavam até aqui a investigação das células estaminais obtidas a partir de embriões humanos.
"Eu creio que essas reservas caem totalmente por terra, porque mesmo para aqueles que entendem que o embrião é uma nova vida humana, se se puder recolher uma célula mas preservar totalmente a sua integridade física, deixa de existir qualquer tipo de argumentação ética ou moral que impeça a utilização e o desenvolvimento dessa técnica", explica.
Para o perito, "esta descoberta vem responder cabalmente àquilo que foi a preocupação defendida pela maioria dos membros do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida".
Assim, quando a metodologia da nova técnica puder ser analisada e reproduzida - e se se confirmar a descoberta da equipa de Robert Lanza, da empresa Advanced Cell Technology -, as células estaminais poderão ser cultivadas e o embrião não será destruído, podendo continuar a desenvolver-se até ao termo da gravidez se for implantado no útero de uma mulher.
Ética "não deve ser utilizada para fins moralistas"
Já o geneticista Carolino Monteiro também se congratula com a experiência norte-americana, que classifica como "uma descoberta importante", mas rejeita um entusiasmo excessivo.
Carolino Monteiro considera que o mais importante dos feitos noticiados pela revista "Nature" é a consequência ética. "A ética é fundamental e tem que acompanhar a evolução da ciência, mas não deve ser utilizada para fins moralistas", afirma, em declarações à Lusa.
A descoberta de uma técnica para fazer investigação sem destruir o embrião é importante porque "esta área é a única que terá as células mais adequadas para a terapêutica de doenças sem outro modo de cura, como as neurodegenerativas, o cancro ou a infecção por HIV", destaca.
O que são células estaminais
Há três tipos de células estaminais, segundo a sua origem: embrionárias, de cordão umbilical e adultas. A investigação das células estaminais embrionárias é polémica, uma vez que não podiam, até aqui, ser obtidas sem a destruição dos embriões humanos. Menos polémica é a utilização de células estaminais adultas, do cordão umbilical e as existentes em laboratório.
A clonagem terapêutica pretende retirar dos embriões clonados as células estaminais. Pensa-se que estas células poderão ser usadas para reparar tecidos e órgãos doentes, como nos casos das doenças de Alzheimer, de Parkinson, diabetes ou outras patologias que impliquem a degeneração dos tecidos.
As células estaminais embrionárias (que ainda não atingiram a sua função definitiva) são provenientes de embriões criados para fecundação in vitro.
Mais de 60 academias científicas de todo o mundo são a favor da clonagem terapêutica. As Nações Unidas, pressionadas por um grupo de países liderado pelos EUA e nos quais Portugal se inclui, querem a proibição de qualquer forma de clonagem, mas ainda não tomaram uma posição sobre a clonagem terapêutica, acontecendo o mesmo com os ministros da Ciência da União Europeia.

