Boaventura de Sousa Santos: Ciências Sociais são "as mais preparadas" para lidar com complexidade da sociedade

19.06.2008 - 16:00 Por Lusa
O director do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos, considerou hoje que as ciências sociais "são as mais preparadas" para lidar com a complexidade que caracteriza as sociedades contemporâneas.
"As ciências sociais são as mais preparadas para lidar com as questões da complexidade que caracterizam a sociedade", sublinhou o sociólogo, em declarações à agência Lusa à margem do colóquio internacional "Caminhos de Futuro - Novos Mapas para as Ciências Sociais e Humanas", que decorre até sábado, assinalando os 30 anos de actividade do CES.
Na sua perspectiva, "não serão apenas os economistas" a ter contributos a dar, nomeadamente para a compreensão da crise que entende verificar-se no modelo social europeu.
"O modelo social europeu, assente em altos níveis de produtividade combinados com altos níveis de protecção social, está em crise", sublinhou, alertando que estão a surgir novos problemas devido a estas alterações.
Os problemas dos emigrantes, da miséria escondida, do desemprego, dos idosos ou das classes médias jovens são algumas das realidades para as quais é importante o contributo da reflexão das ciências sociais e humanas, adiantou Boaventura de Sousa Santos, que proferiu a conferência inaugural do colóquio, que dedicou a Maria Irene Ramalho, sua mulher, professora catedrática da Faculdade de Letras de Coimbra e investigadora do CES.
Ao intervir no colóquio, a brasileira Marilena Chauí, professora catedrática de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, questionou se, actualmente, "não seria o momento oportuno para as humanidades recuperarem a sua força crítica e não temerem resgatar o discurso utópico, não como um programa de acção, mas como um projecto histórico".
Por seu turno, o investigador do CES António Sousa Ribeiro - que intervém sexta-feira no evento - considerou que, "na Universidade do futuro, as Humanidades não podem ter um papel meramente residual".
"A Universidade só tem futuro se as Humanidades tiverem futuro. As Humanidades tratam da cultura, da linguagem, da memória, objectos que podem ser vistos de perspectivas muito diferentes", afirmou.
Em declarações à agência Lusa à margem do colóquio, o professor catedrático de Estudos Alemães da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) sustentou que, "numa época de informação e comunicação, os saberes tradicionais das Humanidades têm uma grande centralidade".
"As faculdades de Letras devem produzir e transmitir os saberes básicos nos domínios das línguas, da cultura, capacitando as pessoas para saberem ler o mundo, para saberem lidar com questões complexas e com desafios imprevistos", defendeu António Sousa Ribeiro.
Ao intervir na sessão de abertura do colóquio, o pró-reitor da Universidade de Coimbra José António Bandeirinha enalteceu a "transcendência e complementaridade disciplinares" e a internacionalização que marcam os 30 anos de actividade do CES.
"Formado a partir de um grupo de docentes e de investigadores, predominantemente oriundos da Faculdade de Economia, o CES - logo desde os primeiros momentos - fez do diálogo entre as disciplinas e as práticas disciplinares uma das suas linhas de acção preponderantes", salientou.
José António Bandeirinha, que falava em nome do reitor da UC, Fernando Seabra Santos, destacou também a capacidade de internacionalização deste laboratório associado do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
"Desde os primeiros momentos, o CES soube mostrar que as fronteiras dos saberes são mais voláteis que as fronteiras dos Estados e que, por isso mesmo, a partilha do conhecimento não reconhece a fronteira política e supera-a, com frontal avidez", sublinhou o pró-reitor da UC.

