Biodiversidade: investigador acredita que painel mundial conseguirá maiores compromissos políticos

23.12.2010 - 12:39 Por Helena Geraldes
Quanto tempo demora uma espécie a extinguir-se? Serão possíveis extinções em massa este século? Estas questões ainda causam discordância entre os cientistas. Henrique Miguel Pereira, da Universidade de Lisboa, acredita que o novo painel para a Biodiversidade vai criar consensos e maior compromisso dos Governos.
Até agora, as avaliações da Biodiversidade mundial têm estado nas mãos dos cientistas. A criação do IPBES (plataforma intergovernamental para a Biodiversidade e os Serviços dos Ecossistemas), aprovada esta segunda-feira pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, vem mudar o cenário e trazer os decisores políticos, oficialmente, para este palco.
“Um dos factores que caracteriza este painel é a aprovação governamental”, explicou Henrique Miguel Pereira, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Este investigador liderou uma equipa de 23 cientistas de nove países que, num artigo publicado em Outubro na revista “Science”, defendeu a necessidade de criação do IPBES. “A vantagem das avaliações actuais era serem independentes e não sofrerem pressões políticas. Mas a verdade é que depois também não havia compromissos dos Governos em relação às suas conclusões. Agora, os relatórios que o IPBES vai elaborar regularmente vão ser aprovados, em votação em plenário, pelos Governos”, explicou hoje ao PÚBLICO.
A iniciativa, em discussão há quatro anos, é considerada “um passo gigantesco nesta área” e poderá traduzir-se num “grau de compromisso político diferente”, acrescentou.
Em Outubro, os Governos comprometeram-se a adoptar metas para travar a perda da biodiversidade até 2020. Por exemplo, os responsáveis políticos aceitaram aumentar a superfície das áreas protegidas de 12,5 para 17 por cento da superfície da Terra e aumentar as áreas marinhas protegidas do actual um por cento aos dez por cento.
“Estas questões são tão urgentes e o que está em causa tão importante para a humanidade, que as vozes dos cientistas terão que convergir através do IPBES para informar os decisores políticos de um modo unificado e eficaz”, declarou Henrique Pereira num comunicado, em Outubro.
Além de elaborar relatórios para informar regularmente os Governos – que podem ser globais, regionais ou temáticos -, o IPBES vai ajudar a reforçar a capacidade de estudo e gestão da Biodiversidade nos países em vias de desenvolvimento. Henrique Miguel Pereira salientou ainda que o painel “vai dar prioridade à representação dos cientistas desses países” no grupo de investigadores que vai contribuir com a informação.
O próximo passo será a realização de um plenário em meados de 2011 para aprovar o plano de trabalho do IPBES para a próxima década. Cada país deverá ainda nomear os cientistas para integrarem o painel.

