Alunos de doutoramento estrangeiros impedidos de se candidatar a bolsas

13.06.2010 - 09:20 Por Nicolau Ferreira
O italiano Carmine Cassino escolheu Portugal. É da geração Erasmus, apaixonou-se pela história portuguesa e terminou a tese de licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) em 2005. Fez um mestrado fora, passou pelo Brasil, mas acabou por voltar para cá para ser professor de Italiano numa escola secundária com uma bolsa europeia. No ano passado deu o passo em frente na carreira académica e iniciou um doutoramento também na FLUL.
"Decidi dar todo o meu contributo para Portugal. Eu sei que agora se prefere engenheiros químicos, mas a cultura é tudo e as ciências humanas também são cultura", explicou por telefone ao PÚBLICO o italiano de 29 anos. O investigador arriscou quatro anos a estudar o impacto dos intelectuais italianos na cultura portuguesa, no século XIX.
Fez o primeiro ano de doutoramento com o dinheiro que recebia para a bolsa e já pagou dois mil euros de propinas. Este ano, decidiu candidatar-se à bolsa de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Mas não estava preparado para que uma alteração no regulamento inviabilizasse o seu projecto.
Cinco anos de residência
"A 3 de Maio fui ler o regulamento e descobri as novidades", relembra. O documento dizia que tinha de apresentar o certificado de residência permanente para se candidatar à bolsa. No Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) explicaram-lhe que para ter este certificado necessitava de viver há cinco anos em Portugal, mais um ano e podia pedir a nacionalidade.
O novo regulamento não exclui os estrangeiros sem certificado de residência permanente. Estes podem candidatar-se a programas de doutoramento financiados pela FCT, que recebe fundos da União Europeia, que estejam ao abrigo de acordos internacionais, como os da Carnegie Mellon University, Harvard, MIT, Austin Texas e outros que possam ser criados no futuro.
Quem não se revê em nenhum destes programas, que apostam na ciência e na tecnologia, pode pedir uma bolsa ao seu país de origem. "Existem hoje em Portugal muitas instituições científicas de grande reputação internacional que conseguem atrair estudantes de toda a parte do mundo", diz ao PÚBLICO João Sentieiro, presidente da FCT, que antevê cada vez mais estudantes estrangeiros a realizarem o doutoramento cá.
Carmine Cassino não se pode candidatar a uma bolsa italiana por já estar a tirar um doutoramento numa instituição de outro país. Entretanto, fez-se membro de um grupo no Facebook que está a debater estas alterações. O grupo Contra as Mudanças no Regulamento da FCT integra vários estudantes que estão em situação semelhante à de Cassino, como Elizardo Costa.
O brasileiro de 29 anos fez o mestrado em Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e quer avançar para um doutoramento na mesma instituição sobre as relações de trabalho nas empresas de telecomunicações, comparando Portugal e Brasil.
Estava para se candidatar à bolsa, mas com a alteração teve que desistir apesar de prosseguir com o doutoramento. "Penso começar a fazer o doutorado e talvez procurar um trabalho, apesar de ser muito complicado fazer os dois", diz também por telefone.
Direito a concorrer
Na última sexta-feira, depois de já terem promovido um debate, o grupo que nasceu no Facebook teve uma reunião com João Sentieiro. "O que buscamos é que os centros de investigação passem a questionar [as restrições aos estrangeiros], pois são afectados com este novo regulamento", explica Marcelo Valadares, criador do grupo, que diz querer mobilizar os vários intervenientes na discussão.
Durante a reunião foram apresentados a Sentieiro vários casos de estudantes que de um momento para o outro ficaram sem possibilidade de concorrer à bolsa. "A FCT concordou em contactar as instituições em causa no sentido de, em conjunto, encontrarem as melhores soluções", diz Sentieiro, assegurando que a medida não vai andar para trás. O presidente da FCT clarifica que as alterações não vão ter efeitos retroactivos e "não está previsto" que as bolsas de pós-doutoramento sofram as mesmas mudanças.

