A utilização de células estaminais voltou a bater à porta da bioética

31.05.2010 - 10:29 Por Nicolau Ferreira
Talvez já tenha ouvido falar sobre o síndroma do X frágil. Uma mutação genética no cromossoma sexual X que afecta um em 3600 homens e uma em cerca de cinco mil mulheres. É responsável por um atraso mental de grau variável, cara e orelhas mais longas, menos musculatura e várias características que dificultam a sociabilização destas pessoas.
O investigador Nissim Benvenisty estuda esta doença há anos e expôs numa apresentação na Gulbenkian, em Lisboa, um problema que o seu laboratório descobriu recentemente e que abriu o workshop intitulado Será que ainda precisamos de células estaminais embrionárias humanas?, realizado na sexta-feira passada. O workshop fazia parte do simpósio sobre Células Estaminais na Biologia e na Doença promovido pelo ES Tools - o Consórcio Europeu para a investigação em células estaminais humanas.
Benvenisty trabalha na Universidade Hebraica de Jerusalém e utiliza células pluripotentes estaminais induzidas (IPS, em inglês) para estudar a doença. Esta tecnologia recente permite utilizar por exemplo fibroblastos, células que estão na parte mais profunda da pele, e através de processos genéticos reverter a célula a um estado indiferenciado, em tudo semelhante às células estaminais embrionárias (ESC, em inglês), capazes de originar todos os tecidos do corpo.
Através das IPS já foi possível diferenciar neurónios a partir de fibroblastos, colocar células pancreáticas a produzir insulina e clonar ratinhos. Ao contrário das ESC, as células pluripotentes são retiradas de tecido adulto, o que contorna um problema ético importante, a utilização de embriões para este tipo de investigação, que tinha e tem vários adversários como a Igreja Católica ou a antiga Administração norte-americana de George W. Bush.
Questões genéticas
As IPS pareciam ter resolvido esta questão, em 2008 foram consideradas pela revista Science como a descoberta científica do ano. Uma das enormes vantagens é que as células poderiam ser retiradas de adultos que tinham problemas genéticos como a distrofia muscular, a Coreia de Huntington, a trissomia 21, o que permitia comparar a formação de tecidos normais e patológicos.
Mas o cientista israelita demonstrou que a questão era mais complexa. Quando no laboratório transformaram células adultas de doentes com o síndroma do X frágil em células IPS, concluíram que as células não eram iguais às ESC, pelo menos no que toca ao X frágil. Esta mutação passada hereditariamente aumenta o tamanho do ADN na região que precede o gene FMR1, que é importante no desenvolvimento das ligações entre os neurónios.
No início do desenvolvimento embrionário humano o gene trabalha normalmente. Mas, ao longo do tempo, a região mutada por ser maior do que o normal vai sofrendo alterações que acabam por impedir a expressão do gene, causando a doença. Quando reverteu as células adultas ao estado original, o grupo de cientistas verificou que o gene FMR1 continuava a não funcionar, o que mostrava que estas alterações do ADN da zona mutada continuavam lá. As células estaminais embrionárias ainda não têm estas alterações.
"Para estudar a regulação temporal da doença é preferível a células embrionárias estaminais", explicou o cientista durante a sua palestra. Segundo Benvenisty, as IPS são bons modelos para outras doenças e mesmo no X frágil, quando se quer investigar a parte neuronal. Mas não é o melhor modelo para todos os casos. Durante a palestra o investigador deu exemplos de outros casos em que a genética também minava a ideia utópica que as IPS podiam substituir as células estaminais embrionárias. Portanto, o dilema ético da utilização de embriões continua na mesa.
Admirável mundo novo

