As águas tranquilas do Corubal em nada deixam transparecer a tragédia de 1969. Aqui viveu-se o episódio mais mortífero do lado português da guerra colonial na Guiné, um naufrágio e não um confronto militar. Meia centena de homens morreu e os poucos corpos resgatados ficaram numa vala algures nas margens. Agora, uma equipa de militares e antropólogos foi à procura da vala.
Acreditam que localizaram uma vala comum, nas margens verdes do rio Corubal, que guarda há 41 anos os ossos de militares portugueses ali naufragados durante a guerra colonial, e é atrás dessa pista que três jipes deixam a capital da Guiné-Bissau. Esperam todos que a viagem marque a descoberta daqueles que ficaram tantos anos para trás.
Quase quatro horas de caminho, de Bissau a Gabú, a antiga Nova Lamego, por uma estrada de alcatrão e um calor seco, forte. Pela berma, sucedem-se campos de arroz, plantações de caju, vacas, burros anões a puxar carroças, sacos de carvão à venda, tijolos de barro a secar ao sol, feixes de lenha, mesquitas, termiteiras com as suas pirâmides de terra gigantes, uma paisagem plana sem fim, seca e arborizada, povoações tradicionais com cubatas, as casas redondas feitas de paredes de terra e telhados de colmo, mulheres a caminhar pela estrada com o que calha à cabeça ou a bombear água dos poços, homens que conversam à sombra de árvores, crianças que brincam, gente que se move em bicicletas ou nos toca-toca, as carrinhas azuis e amarelas de transporte colectivo onde não cabe nem mais um alfinete, pequenas lareiras na rua ao entardecer. E sucedem-se cidades, como Bafatá, a terra natal de Amílcar Cabral, com dois monumentos ao líder histórico da Guiné e a casa de pedra onde nasceu, na parte mais portuguesa, abandonada e a convidar qualquer um a entrar pelas portas degradadas. Entremos por instantes. As paredes claras, despidas por completo e que noutras circunstâncias albergariam um museu, abrigam um intruso que se refugiou num colchão estendido no chão; e através daquelas portadas altas entrevê-se o largo onde um Amílcar Cabral terá brincado em criança.
Como será o Corubal agora, rio trágico para os portugueses?
Testemunho local
Uma tarde inteira nisto e Gabú, uma das principais cidades da Guiné, a cerca de 200 quilómetros de Bissau, surge ao entardecer aos viajantes, corpos moídos pelo calor. Tem aquele caos africano. Ruas esburacadas, lixo amontoado em qualquer canto ou mesmo no meio das estradas, barracas onde se vende todo o tipo de produtos, de relógios a sabão, laranjas ou amendoins. "Aqui vende-se bibida fresca e sumu", escreveram numa parede. Mulheres que percorrem as ruas, cada uma exibindo um vestido mais colorido do que a outra; e na antiga estação portuguesa dos correios, já sem todas as letras da sigla CTT, vislumbram-se os traços de um passado, 36 anos após a saída de Portugal da Guiné. Luz eléctrica, só nos sítios com gerador próprio e o resto é uma cidade às escuras, iluminada só pelo luar, tal como a capital.
Mussa Djaló, da etnia fula, vive aqui. Amanhã ele vai juntar-se aos viajantes portugueses, numa missão da Liga dos Combatentes, chefiada pelo major-general Fernando Aguda e acompanhada pela equipa de antropólogos forenses de Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra e colaboradora do Instituto Nacional de Medicina Legal. A partida para a última etapa da viagem, 40 quilómetros de Gabú a Cheche, a aldeia mais próxima do local do naufrágio, faz-se bem cedo, ainda o dia não clareou.
Terá chegado o momento ansiado por muitos, quer militares que estiveram em África, quer familiares dos que morreram? Estarão certas as pistas para a localização da vala comum e os restos mortais repousam realmente no local previamente identificado? Ajudará a missão, a primeira a procurar os mortos de Cheche, a sarar mágoas antigas ou acicatará os críticos destas missões?
De cabeça toda rapada, Mussa Djaló mantém o ar franzino aos 60 e tal anos. Na guerra colonial, integrou as Forças Armadas portuguesas: pertencia à companhia de Caçadores 5, em Nova Lamego, que tinha pelotões perto de Cheche, em Canjadude. Era aqui que estava destacado quando diz que viu o que viu nas margens do Corubal, fez em Fevereiro 41 anos.


