Como é que Michael Jackson desafiava a gravidade?

Já se sabia que conseguiu inclinar-se a 45 graus no videoclip de Smooth Criminal e nos espectáculos ao vivo, graças a cabos e a uns sapatos especiais. Agora, uma equipa de cientistas analisou esse movimento do ponto de vista da biomecânica e da neurocirurgia.

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Michael Jackson executa a "inclinação anti-gravidade" no videoclip de Smooth Criminal DR

Michael Jackson mostrou as suas habilidades como bailarino em muitos videoclips. Mas é no vídeo de Smooth Criminal que desafia a gravidade com um movimento chamado “inclinação antigravidade”. Nele, conseguiu inclinar-se 45 graus para a frente e voltar para trás sempre com a coluna vertebral direita. Para quem o vê a executar o passo, surge a questão: Michael Jackson fê-lo graças ao seu talento, a efeitos especiais ou a ambos? Três neurocirurgiões indianos – fãs de Michael Jackson (1958-2009) – voltaram a responder a essa questão e revelam esta terça-feira num artigo da revista científica Journal of Neurosurgery que o antigo “rei da pop” executava este passo graças a uns sapatos especiais, ao centro de gravidade e ao tendão de Aquiles.

“Nenhum artista a solo moldou, inovou ou definiu os vídeos musicais mais do que Michael Jackson”, disse em tempos a revista Rolling Stone, segundo um comunicado da Journal of Neurosurgery. Para o artista que popularizou o movimento de dança moonwalk, um videoclip era mais do que uma promoção para as suas músicas. Os vídeos de Michael Jackson tinham histórias, efeitos especiais, cinematografia e coreografias, como fez em Billie Jean ou em Thriller. Mas foi no videoclip de Smooth Criminal, em 1987, que o artista imortalizou o passo “inclinação antigravidade”. Depois, passou a fazer o movimento também nos seus espectáculos ao vivo em todo o mundo.

Já se sabia que Michael Jackson teve a ajuda de cabos ou de uns sapatos especiais para este passo. Mas um grupo de cientistas do Instituto de Pós-Graduação de Investigação e Educação Médica, em Chandigarh (Índia), quis recordar e perceber este movimento do ponto de vista da biomecânica e da neurocirurgia. Aliás, Manjul Tripathi confessa mesmo ao PÚBLICO que desde criança que é fascinado pelos movimentos de Michael Jackson. Quando começou a estudar Neurocirurgia, quis logo compreender os segredos por trás dos seus movimentos, assim como a sua biomecânica. “E, para minha surpresa, poucas pessoas estavam conscientes de que Michael Jackson utilizava sapatos [para se inclinar]. Então, decidimos divulgar isto ao público em geral.”

Como tal, no artigo perguntam logo: Michael Jackson fez mesmo um movimento impossível? “Na realidade, não é fisicamente possível fazê-lo”, responde Nishant Yagnick, um dos autores do artigo, à CNN. “Ele estava a enganar a gravidade.”

Vejamos então o que é uma inclinação normal e uma inclinação de Michael Jackson. Numa inclinação normal – em que ficamos de costas para cima –, o centro de gravidade permanece na segunda vértebra do sacro. “Estudos de biomecânica e cinesiologia sugerem que, quando nos inclinamos para a frente com a coluna direita, mantemos como ponto de apoio as nossas articulações da anca e os músculos sacroiliolombares actuam como cabos que apoiam a suspensão da coluna vertebral durante a mudança do centro de gravidade, evitando assim que o corpo caia para a frente”, explicam os cientistas no artigo.

Mas tudo muda se o ponto de apoio estiver nas articulações dos tornozelos – estamos assim perante a inclinação de Michael Jackson. Neste movimento, os músculos sacroiliolombares não conseguem apoiar o centro de gravidade e a pressão está sobre o tendão de Aquiles (o mais forte do corpo). A coluna vertebral mantém-se direita, mas o grau de inclinação é muito limitado. Normalmente, consegue-se atingir os 20 graus. Já os bailarinos com um centro de gravidade bem treinado chegam aos 25 ou 30 graus. Michael Jackson alcançou os 45 graus. Como?

No videoclip, o artista usou cabos de apoio e um cinto que lhe permitiram executar o movimento. Mais tarde, e como tinha de realizar esta inclinação em espectáculos ao vivo, Michael Jackson, juntamente com outros criadores, desenvolveu uns sapatos que se fixavam no chão e lhe permitiam inclinar-se a 45 graus. Estes sapatos tinham uma abertura triangular que encaixava num parafuso de fixação, que emergia na superfície do palco na altura certa. Assim, o artista ficava com o apoio necessário para executar este movimento impossível para um humano.

Como botas de astronauta

A ideia para estes sapatos terá surgido a partir das botas dos astronautas e acabou por ser patenteada em 1993. Segundo o documento do Gabinete de Patentes e Marcas dos Estados Unidos, este calçado foi desenvolvido para “criar o efeito de ilusão de antigravidade com propósitos de entretenimento.” 

Mas os sapatos não foram o único contributo para a execução do movimento. “Mesmo com calçado especialmente concebido para o efeito e o apoio do parafuso de fixação, o movimento é incrivelmente difícil de executar, requerendo um centro de gravidade atlético, músculos da coluna vertebral fortalecidos e músculos antigravidade nos membros superiores”, considera-se no artigo. Por isso, a preparação física de Michael Jackson também foi uma boa ajuda. “As pessoas normais, mesmo com os sapatos, provavelmente não o conseguem fazer. Tem de se ter muita prática para se desenvolver os músculos do centro de gravidade”, salientou Nishant Yagnick à CNN.

Já agora, os cientistas também experimentaram inclinar-se como Michael Jackson? Logo no artigo, os neurocirurgiões assumem que imitaram o movimento (sem os sapatos), mas não o conseguiram concretizar. “Experimentei fazê-lo e caí”, disse à CNN Manjul Tripathi, acrescentando ao PÚBLICO que desde há muito tempo que tenta executar a inclinação a 45 graus e que é sempre em vão. Diz que Nishant Yagnick é o melhor bailarino dos três e, por isso, foi ele quem experimentou o movimento para o trabalho.  

Este estudo traz ainda outra questão, como indica Manjul Tripathi: “Michael Jackson tem inspirado várias gerações de bailarinos, levando-os além dos seus limites. Embora seja agradável ver estes movimentos, eles também provocam novas formas de lesões músculo-esqueléticas.” Por exemplo, o hip-hop e a breakdance envolvem muitos movimentos acrobáticos e os bailarinos podem ter muitas lesões e graves. Por isso, é necessário conhecer melhor certos movimentos. “Os bailarinos precisam de se examinar a si próprios enquanto fazem lesões repetitivas, o que lhes pode proporcionar danos irreversíveis na coluna e nas estruturas músculo-ligamentares do corpo”, indica-nos Manjul Tripathi.

O médico conta que já tratou bailarinos com várias lesões na coluna vertebral e que muitos precisaram apenas de fisioterapia ou descanso. Só nos casos mais graves é necessária a intervenção cirúrgica. “A situação torna-se difícil quando estes doentes voltam a dançar da mesma forma e as lesões repetitivas ficam mais difíceis de tratar. O que coloca os neurocirurgiões e os doentes numa situação delicada.”

Por tudo isso, Manjul Tripathi – que também já está a estudar o moonwalk – aconselha: “Dancem, mas com cuidado!” Afinal, nem todos temos o centro de gravidade e o tendão de Aquiles de Michael Jackson.  

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