Adrien Silva e a “carraça táctica”

Jorge Jesus, inteligentemente, procura não alterar o modelo de jogo da época passada, assente estruturalmente num 4x4x2, que se molda num 4x3x3 em muitos momentos. Forçosamente, a mudança indesejada de intérpretes obrigará a diferentes dinâmicas (transferências iminentes de principais craques), mas não a uma alteração profunda de comportamentos globais.

Alan Ruiz, contratado no Verão, tem sido preponderante no último terço do terreno. Excelente a assistir, disponível para circular e com remate fácil de fora da área. Se aprimorar a invasão espacial a partir de trás (pede ainda excessivamente a bola no pé), explorando os arrastamentos do avançado-centro para finalizar, ficará um jogador completo. É ele que permite a variação estrutural, ora aproximando-se da zona de definição em ataque continuado, ora recuando para junto de Adrien Silva em organização defensiva (cobre espaços, mas ainda sem capacidade para os “devorar” em pressão).

Nuno Espírito Santo não se decidiu, nesta fase, sobre a forma de explanar a equipa (4x3x3 ou 4x4x2). Já entrou de início com as duas fórmulas e é claramente pela primeira que deve optar. Quando joga Adrián López, próximo do avançado André Silva, a equipa perde referências de posicionamento e capacidade de pressão. O espanhol é um jogador trans-sistema: não participando na consolidação dinâmica, apenas responde, num repente, às movimentações de terceiros (não é individualmente fraco, mas de complementaridade muito difícil). É com o triângulo de meio-campo formado por Danilo (trinco de cobertura em profundidade e largura), Herrera (médio de transição em condução e aproximação da área em rupturas) e André André (pressão alta e compensação das arrancadas do mexicano) que se definem claramente três linhas equilibradas e “dialogantes”.

A “chave do jogo” poderá ser Adrien, pela libertação ou castração dos seus movimentos. O Sporting está órfão do melhor jogador da anterior época, João Mário (unia faixa com zona interior em posse ou recuperação, era vertical com técnica no ataque e predisposto a defender, roubando na primeira fase contrária). Sem ninguém que execute da mesma forma (Campbell e Gelson cingem-se à faixa), Jesus “sobrecarregou” Adrien para garantir a versatilidade do modelo (sendo agora feita a partir dos seus espaços e acções preferenciais).

É aconselhável ao FC Porto disponibilizar uma marcação individualizada sobre este elemento, talvez através da incansável “carraça táctica” André André. A sua predisposição física e mental muito forte em colar-se permanentemente ao adversário poderá perturbar a fluidez de pensamento do melhor futebol leonino.

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